Sujeira é Paleo


O nosso sistema imunológico terá uma melhor resposta na vida adulta se for mais desafiado na infância. Isto quer dizer que um pouco menos de proteção quando pequenos, garante maior proteção pelo resto da vida.


Sujeira: um superalimento Paleo?

Artigo de Chriss Kresser. Tradução: Regiany Floriano. O original está aqui.

Ao longo das últimas décadas, as doenças inflamatórias crônicas, como a doença inflamatória intestinal (DII), alergias e asma tornaram-se significativamente mais comuns em países industrializados.

Houve um aumento na incidência de DII, particularmente em crianças, com 20% a 30% dos pacientes com início dos sintomas antes dos dezoito anos (1) As taxas de alergia alimentar vem aumentando, e as alergias sazonais mais que duplicaram desde os anos 70. (2, 3) Houve também um aumento acentuado nas taxas de asma em crianças e adultos na última década, com quase uma em cada dez crianças e um em cada doze adultos que sofrem da doença. (4)

Mesmo as condições auto-imunes, tais como diabetes tipo 1 e esclerose múltipla, aumentaram de forma muito rápida para serem contabilizadas por mudanças em nossa genética. (5) Muitos profissionais de saúde, cientistas e epidemiologistas não encontram uma explicação por que as taxas dessas doenças inflamatórias estão aumentando de forma tão acentuada.


Será que nós não estamos comendo sujeira suficiente?

A nossa cultura que dá uma atenção obsessiva à limpeza, saneamento e higiene, na verdade pode ter conseqüências não intencionais em nosso sistema imunológico. Enquanto um ambiente higiênico pode ser crucial em áreas como hospitais ou na produção de alimentos, a nossa prevenção geral contra a sujeira, bactérias e outros agentes infecciosos pode estar deixando o nosso sistema imunológico sub-estimulado, podendo tornar-se sensível demais aos antígenos benignos.

A "hipótese da higiene" ou a "hipótese dos velhos amigos" sugerem que o aumento da prevalência de doenças inflamatórias, seja resultado da regulação de um sistema imunológico defeituoso, devido à redução da exposição a uma variedade adequada de microrganismos (6). Como o nosso sistema imunológico evoluiu ao lado de uma enorme variedade de diferentes microbiotas, tanto comensais como patogênicas, as recentes mudanças na sociedade e a exposição ambiental a germes podem desempenhar um papel importante no aumento global de doenças inflamatórias, particularmente em ambientes urbanos. (7)


Evidências para a hipótese de higiene de doença inflamatória foi recentemente demonstrada em ensaios controlados com animais.

Em um estudo de 2012, os pesquisadores examinaram o sistema imunológico de ratos "livres de germes" que haviam sido criados sem bactérias intestinais e os compararam a ratos com exposição normal aos microrganismos. (8) Eles descobriram que os camundongos livres de germes tinham significativamente mais inflamação nos pulmões e cólon, semelhante às encontradas em humanos com asma e colite, devido à hiperatividade de células T específicas que foram ligadas a estas condições, tanto nos ratos como humanos.

O que é mais interessante sobre esses resultados é que, se os ratos livres de germes fossem expostos a microrganismos durante as primeiras semanas de vida, eventualmente desenvolveriam um sistema imunológico normalizado e evitariam a doença inflamatória. Por outro lado, aqueles ratos livres de germes, mas expostos mais tarde, quando adultos, nunca recuperaram um sistema imunológico em pleno funcionamento. Isto demonstra um período de tempo crucial durante o início da vida onde o sistema imunológico deve ser devidamente condicionado para funcionar normalmente. Evidentemente, este efeito tem que ser demonstrado em seres humanos, mas estes resultados preliminares são promissores para o estudo do desenvolvimento da doença inflamatória.


Então o que isso significa para nós, humanos? Devemos todos começar a comer sujeira cheia de bactérias?

Não tão rápido. Não se esqueça que nem todos os organismos do ambiente são "velhos amigos". Alguns deles podem causar doenças e até mesmo a morte. No entanto, a hipótese de higiene destaca a importância da microbiota intestinal na regulação do nosso sistema imunológico e da saúde geral. Além disso, enfatiza ainda as potenciais conseqüências de coisas que afetam negativamente a nossa microbiota intestinal, começando com uma cesariana ao nascimento e a alimentação por fórmulas (em vez da amamentação) e continua mais tarde na vida, com uso excessivo ou mau uso de antibióticos. Embora existam muitos fatores diferentes que contribuam para o desenvolvimento de condições inflamatórias e auto-imunes, a evidência da hipótese de higiene é suficientemente robusta para não ser ignorada.

Uma importante mensagem para ser guardada desta pesquisa, é a noção de que certos desenvolvimentos biológicos cruciais acontecem durante os primeiros anos da infância e adolescência e esses marcos de desenvolvimento não podem simplesmente ser recriados durante os últimos anos de vida. Isso significa que as crianças são especialmente vulneráveis a insumos ambientais, tanto positivos como negativos, que podem afetar significativamente sua saúde mais tarde na vida. Isso também significa que há mais coisas relacionadas com a saúde do que com alimentos. Uma dieta rica em nutrientes, com alimentos integrais é certamente uma das melhores medidas que podemos tomar para prevenir doenças e melhorar a nossa saúde. Mas não resolve todos os problemas, especialmente em face às alterações ambientais e epigenéticas da microbiota comensal do intestino.

Embora não possamos controlar todos os fatores da saúde futura e do bem-estar de nossos filhos, podemos pelo menos nos sentir melhor em deixar nossos filhos se sujarem na lama, colocar brinquedos na boca ou brincar com o cão do vizinho. Além de ficarmos um pouco menos preocupados em proteger nossos filhos de germes, talvez devêssemos realmente encorajá-los a ficarem um pouco sujos de vez em quando!


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 As informações contidas neste blog são relatos pessoais, ou artigos traduzidos com as devidas referências, não se destinam a diagnosticar, tratar, curar ou prevenir qualquer condição médica e não devem ser usadas como um substituto para o cuidado e orientação de um médico / nutricionista.