Antes de ler outro estudo sobre saúde, verifique quem está financiando a pesquisa

    Foto: Alamy

Infelizmente a palavra 'estudo' não é garantia de informação idônea sobre saúde. Há algum tempo os pesquisadores recebem patrocínio
das industrias alimentar e farmacêutica para favorecer os interesses comerciais, mesmo que não os resultados sejam tão interessantes para o publico alvo.
Dr Fung já falou sobre os bastidores da Medicina e o The Guardian trata disto também, como você pode ler no texto abaixo.
(Artigo original aqui, tradução Regiany Floriano).

As empresas de alimentos têm uma triste história de financiamentos de pesquisas tendenciosas para apoiar seus produtos. Demos uma olhada em alguns exemplos de flagrantes recentes.

Recentemente, surgiram evidências de que a indústria açucareira pagou cientistas na década de 1960 para incriminar a gordura saturada, e não o açúcar, como causador de doenças cardíacas. Embora as revelações sejam impressionantes, o financiamento de pesquisas no campo da nutrição pela indústria de alimentos, é mais comum do que os consumidores podem imaginar.

A professora de nutrição da Universidade de Nova York, Marion Nestle, iniciou informalmente o acompanhamento de estudos financiados por empresas de alimentos e bebidas, bem como por grupos comerciais em 2015. Sua pesquisa descobriu 168 desses estudos somente neste ano, dos quais 156 mostraram resultados tendenciosos que favoreceram os interesses do patrocinador, disse ela ao The Guardian.

Outras pesquisas chegaram a conclusões semelhantes. Uma revisão de 206 estudos feita em 2007 que analisou os benefícios para a saúde do leite, refrigerantes e sucos de frutas, descobriu que os estudos foram inteiramente patrocinados por uma empresa de alimentos ou bebidas, tinham quatro a oito vezes maiores probabilidades de mostrar efeitos positivos para a saúde relacionados ao consumo desses produtos.

"É verdade que as empresas de alimentos deliberadamente se propõem a manipular a pesquisa em seu favor? Sim, é, e a prática contínua", escreveu Marion Nestlé em um comentário que acompanha o novo relatório criticando a indústria do açúcar.

A questão é complicada, disse ela. As empresas não pagam aos pesquisadores para chegar a uma conclusão favorável. Na verdade, os pesquisadores não consideram que o financiamento da indústria influencie os resultados, mas a evidência sugere o contrário, ela acrescentou.

"Os pesquisadores que recebem financiamento da indústria de alimentos não acreditam que isso afete o design ou a interpretação do estudo e ficam indignados com esta sugestão", disse Nestle. "A pesquisa, entretanto, mostra fortes correlações entre o financiamento e os resultados de pesquisa".

Aqui estão apenas alguns exemplos de empresas de alimentos e bebidas que pagam a conta para a pesquisa que poderia ser transformada em pseudociência baseada em relações públicas.


Photograph: Rob Elliott/AFP/Getty Images
Refrigerantes

Um dos exemplos mais marcantes de intromissão corporativa foi a revelação no ano passado, de que a Coca-Cola pagou aos cientistas para transmitirem a mensagem de que a atividade física seria uma ferramenta mais eficaz na perda de peso do que a redução da ingestão de alimentos e bebidas. O gigante das bebidas foi tão longe a ponto de criar uma organização sem fins lucrativos chamada Global Energy Balance Network para empurrar a mensagem de que os americanos gastam muito tempo preocupados em cortar calorias, e pouco tempo praticando exercícios. Depois de uma investigação feita pelo New York Times, a organização sem fins lucrativos anunciou que estava se dissolvendo. Em uma tentativa de ser mais transparente, a Coca-Cola revelou que gastou US$ 132,8 milhões em pesquisas científicas e parcerias entre 2010 e 2015.


foto: Alami
Suco

No início deste ano, a Suprema Corte dos Estados Unidos recusou-se a ouvir um apelo de outra empresa de bebidas, a POM Wonderful, cujas alegações de saúde feitas em seus anúncios induziam os consumidores ao erro. A empresa tinha pago US$ 35 milhões para estudos que mostraram que beber o Maravilhoso suco de romã POM e tomar suplementos POMx poderia tratar, prevenir ou reduzir o risco de doença cardíaca, câncer de próstata e disfunção erétil. Um tribunal de primeira instância decidiu que a sua metodologia não foi rigorosa o suficiente, e que os anúncios contendo afirmações como: "Surpreenda o seu cardiologista" e "A superpotência antioxidante" eram falsos.


Foto: Paolo Giovannini/AP
OGMs

A Monsanto e outras empresas de biotecnologia agrícola recrutaram acadêmicos que receberam pagamentos sob a forma de subsídios e viagens para defender publicamente a segurança dos herbicidas utilizados nas culturas geneticamente modificadas, de acordo com e-mails privados descobertos pela entidade sem fins lucrativos Right to Know dos EUA. Em alguns casos, os consultores da indústria até forneceram aos acadêmicos as respostas programadas às perguntas como "os GMOs causam câncer?" De acordo com uma investigação nos e-mails feita pelo New York Times, a indústria de biotecnologia publicou "dúzias dos artigos" sob os nomes de respeitados cientistas, alguns dos quais, foram recrutados por consultores de relações públicas. Kevin Folta, presidente do departamento de ciências hortícolas da Universidade da Flórida, escreveu em um e-mail a um executivo da Monsanto: "Sou grato por esta oportunidade e prometo um sólido retorno sobre o investimento".


Foto: Andrew Milligan/PA
Aveia

A PepsiCo, proprietária da Aveia Quaker, encomendou um estudo em 2011 para testar se a Aveia Quaker quente e o seu cereal frio Quaker Oatmeal Squares seriam mais saciantes do que o seu rival Honey Nut Cheerios. O relatório descobriu que a aveia manteve os 48 participantes do estudo mais satisfeitos por mais tempo do que os que comeram Cheerios, mas os resultados foram misturados com os do cereal frio da Quaker. A PepsiCo escolheu publicar apenas os resultados sobre a aveia quente, omitindo menção sobre o cereal frio. De acordo com a Associated Press, a empresa disse que os resultados dos cereais frios não eram "suficientemente significativos para justificar a publicação".


Foto: Sakchai Lalit/AP
Laticínios e carnes

Este estudo de 2015 publicado no American Journal of Clinical Nutrition acompanhou apenas 14 mulheres pós-menopáusicas com sobrepeso durante um período de duas semanas para examinar o efeito no colesterol determinados pelo consumo de queijo com alto teor de gordura e pela carne com alto teor de gordura. Este estudo descobriu que as dietas que tem carne e queijo como a principal fonte de gordura saturada, determinou níveis mais elevados de HDL, ou o chamado "bom" colesterol, em comparação com uma dieta com baixo teor de gordura, rica em carboidratos. O estudo foi totalmente financiado pela indústria de laticínios, incluindo o Dairy Research Institute e a Danish Dairy Research Foundation. O estudo foi criticado em uma carta ao editor da revista que observou que "as dietas experimentais aparentemente são projetadas para que a conclusão possivelmente desejada possa ser extraída".


Foto: Ben Stevens/PA
Açúcar

Um estudo de 2011 descobriu que as crianças que comem doces tendem a pesar menos do que aquelas que não comem. O problema: a pesquisa foi financiada pela National Confectioner's Association, um grupo de comércio que representa os fabricantes de doces bem conhecidos, como as barras Snickers, Tootsie Rolls e Skittles. O estudo também foi baseado em uma pesquisa que perguntou aos participantes o que eles tinham comido nas últimas 24 horas, e os autores observaram no relatório, que os resultados provavam causa e efeito. De acordo com a Associated Press, que conduziu uma investigação sobre as alegações, um dos cientistas escreveu para seu co-autor em 2011: "Estamos esperando que eles possam fazer algo com isto - é fino mas claramente robusto".


De vez em quando, os resultados não são do interesse do financiador. Segundo Nestle, a National Honey Board financiou um estudo, em colaboração com o Departamento de Agricultura dos EUA, para testar se o mel tinha menos efeito sobre os níveis de açúcar no sangue do que o açúcar branco de cana ou o xarope de milho rico em frutose. Mas os participantes do estudo mostraram níveis de açúcar no sangue semelhantes após consumir cada um dos três edulcorantes, levando os autores a concluir que seria preferível comer menos açúcar do que tentar encontrar um açúcar "mais neutro em termos de seus efeitos na saúde".

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