Dietas de baixo teor de gordura são recheadas de equívocos


 



 Por Dr David Ludwig


Normalmente, a ciência avança por tentativa e erro. Quando a experiência falha os investigadores questionam suposições, formulam novas idéias e, em seguida, projetam estudos melhores. Mas o campo da nutrição está tendo um momento difícil deste quando se trata do fracasso das dietas com baixo teor de gordura.


Como observado no Journal of the American Medical Association, a sabedoria convencional costumava ser que ao se reduzir a gordura ingerida ficaríamos magros e saudáveis. No entanto, as coisas não têm funcionado satisfatoriamente dessa maneira, e os americanos estão lutando para se ajustar a uma nova realidade dietética.


Cinquenta anos atrás, nós tínhamos uma dieta rica em gordura, com leite integral, molhos ricos e cremes, molhos para salada cheios de gordura, manteiga de amendoim e carnes gordas. Mas esse padrão alimentar sofreu um ataque persistente, quando pesquisas preliminares sugeriram que a gordura na nossa alimentação nos faria ganhar peso e entupiria nossas artérias. Notavelmente, a gordura tem mais que o dobro da "densidade de energia" (calorias por grama) do que os carboidratos como o amido e açúcar. Além disso, experiências de laboratório a curto prazo sugeriram que a gordura poderia determinar uma menor satisfação, fazendo com que  ocorresse "o consumo excessivo passivo".

Os primeiros estudos clínicos forneceram algum suporte para esta linha de pensamento. Os voluntários que adotaram uma dieta de baixa gordura espontaneamente perderam uma pequena quantidade de peso durante um curto tempo (embora estes estudos iniciais normalmente carecessem de um grupo de controle apropriado). E as simples comparações observacionais relataram que as pessoas que comiam mais carboidratos tendiam a pesar menos do que aquelas que comiam mais gordura.


Baseados principalmente nesta evidência, muitos especialistas propuseram que a substituição de gordura por carboidrato - qualquer carboidrato - iria nos ajudar naturalmente a comer menos e controlar o peso sem ter que cortar conscientemente as calorias. E isso incluía o açúcar.

Como a gordura, o açúcar é saboroso, mas como todos os carboidratos, tem uma a densidade energética muito menor. A partir deste ponto de vista do equilíbrio energético, o açúcar passou a ser visto como uma boa maneira a substituir a gordura e as calorias da dieta - a chamada gangorra de açúcar - gordura. "A evidência sugere curiosamente," uma equipe proeminente escreveu, "que é especificamente um aumento da ingestão de açúcares... E não de carboidratos complexos que tende a diluir a energia de gordura." Outra equipe escreveu que, "a gordura promove o consumo excessivo, enquanto a sacarose [açúcar de mesa], provavelmente evita."


Em um sentido muito real, parecia que poderíamos comer o nosso bolo (com baixo teor de gordura) também.
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Apesar das preocupações pela falta de evidências científicas de alta qualidade, o governo e todas as principais associações dos profissionais de nutrição na década de 1990, recomendaram que todos depois da infância comessem uma dieta com baixa gordura e rica em carboidratos. Os americanos foram orientados a substituir todas as gorduras por uma variedade de carboidratos, incluindo de seis a onze porções produtos à base de grãos diariamente, como exemplificado pela Pirâmide Alimentar original.


Para facilitar esta mudança, metas do governo (o Healthy People 2000) oficialmente pediram para a indústria alimentar que aumentassem em "pelo menos 5000 produtos a disponibilidade de alimentos processados com teor reduzido de gordura".


A indústria de alimentos acatou o pedido, substituindo a gordura dos produtos alimentares por amidos e açúcar. Com a aquiescência do governo e a participação das entidades profissionais, todos os tipos de produtos açucarados foram promovidos como "baixo teor de gordura" ou livres de gordura ("fat-free").


E, assim, substituímos o leite integral, a manteiga de amendoim e molhos gordos para saladas por versões açucaradas com gordura reduzida. Evitamos as nozes, abacates e chocolate amargo enquanto carregava-se uma variedade de guloseimas e doces com baixo teor de gordura. Como resultado, dentro de uma geração, a proporção de gordura na nossa dieta diminuiu de mais de 40% para 30%, perto da recomendada pelo governo. Mas as taxas de obesidade e diabetes dispararam, e as longas décadas de tendência de queda da doença cardíaca pareciam prontas a serem revertidas.


De acordo com a hipótese do balanço energético de controle do peso corporal, substituir os carboidratos pela gordura deveria ter reduzido as taxas de obesidade e doenças crônicas relacionadas à dieta, mas ocorreu o contrário.


Contrariamente ao pensamento anterior, uma nova pesquisa mostra que muitos tipos de gordura são altamente saciantes e extremamente nutritivas. Alguns dos alimentos mais densos em calorias que existem - nozes, produtos lácteos integrais, azeite, chocolate escuro - estão associados com menor ganho de peso do que os grãos processados, produtos à base de batatas e outros alimentos ricos em carboidratos comumente consumidos.


Várias revisões sistêmicas recentes mostram que as dietas ricas em gordura produzem uma maior perda de peso do que as dietas de baixa gordura, quando ambos os grupos nos ensaios recebem apoio equivalente.


Mais importante ainda, a redução da ingestão de gordura não reduziu as taxas de doença cardiovascular em dois grandes ensaios clínicos, o “Look Ahead” (Olhar para frente) e a “Iniciativa de Saúde da Mulher”, enquanto que o aumento da ingestão de gordura avaliada no estudo da dieta mediterrânica Predimed sim. Consistente com estes resultados, um estudo deste ano constatou que pessoas que consumiram uma dieta rica em gordura tinham taxas de 16% menores de morte prematura do que aquelas que consumiram uma dieta com baixo teor de gordura (embora o tipo de gordura tenha desempenhado um papel significativo na determinação do risco).


Respondendo a novos elementos de prova, as orientações do USDA Dietary 2015 elevou o limite de gordura na dieta, extraoficialmente terminando a dieta era baixo teor de gordura. Mas você nunca vai saber disto, porque a contabilidade completa deste experimento que falhou nunca foi feita. Na ausência deste processo corretivo, recomendações prejudiciais à saúde pública persistirem, com a dieta de baixo teor de gordura permanecendo profundamente enraizada na consciência pública e política alimentar. Na verdade, de acordo com uma recente pesquisa do Gallup, a maioria dos americanos ainda evita ativamente comer gordura.


É hora de reconhecer os erros do passado e analisar porque o foco no equilíbrio calórico saiu pela culatra. Uma explicação é que o corpo luta contra a redução de calorias, aumentando a fome e retardando o metabolismo, tornando cada vez mais difícil para a maioria das pessoas manter a perda de peso em uma dieta convencional com baixo teor de gordura, de baixa caloria. Mas vários colegas e eu afirmamos que todas as calorias não são iguais. Ao reduzir o consumo dos carboidratos processados, os níveis de insulina caem, desbloqueando as calorias armazenadas na forma de gordura e ajudando a promover a perda de peso a longo prazo (a hipótese de carboidrato-insulina).


Se esta concepção alternativa estiver certa, isso significa que a restrição calórica é inútil a longo prazo, e que o tratamento de perda de peso deve incidir sobre o tipo, e não na quantidade de calorias consumidas - o oposto da recomendação do balanço energético convencional.


Mas esse debate científico potencialmente emocionante está mergulhado na história revisionista, prejudicando uma competição clara entre estas duas hipóteses contrastantes.
Desconsiderando a ampla evidência em contrário, alguns afirmam que nenhum defensor do baixo teor de gordura jamais recomendou alimentos extremamente processados livres de gordura (junk food) - isto aconteceu por culpa da indústria de alimentos que comercializa esses produtos e culpa da população que os compra. Mas se a verdadeira intenção das recomendações nutricionais seria aumentar os vegetais, frutas e grãos integrais (em vez de processados), não teria havido necessidade de limitar a gordura em primeiro lugar.


Outros apelam pela redução do financiamento das pesquisas sobre as dietas de baixo carboidrato, porque os seus benefícios para o peso corporal não parecem grandes, mas isso é exatamente o remédio errado. De fato, estudos sobre dietas alternativas receberam um financiamento governamental minúsculo em comparação com a as pesquisas sobre as dietas de baixa gordura. Por esta razão, a maioria dos estudos sofrem de limitações importantes, tais como o uso de métodos ineficazes para mudar realmente as dietas.


Este debate também tem sido desnecessariamente complicado por preocupações éticas e ambientais sobre comer carne. Embora estas preocupações sejam importantes, elas descansam na falsa premissa de que todas as dietas ricas em gordura são inerentemente elevadas em produtos de origem animal. Na prática, pode-se comer uma dieta de baixa gordura com grande variedade de carne vermelha magra, aves, queijo sem gordura e clara de ovos; ou uma dieta rica em gorduras com azeite de oliva, nozes e outras gorduras de origem vegetal.


A ciência da nutrição é complexa. Mas nós sabemos que a dieta de baixo teor de gordura dos últimos 40 anos não funcionou. Tendo em vista o custo humano e econômico das doenças relacionadas com a dieta, esta falha requer uma avaliação rigorosa, esforços para amenizar os danos existentes e um robusto financiamento do governo para testar novas ideias.




David LudwigArtigo publicado no CNN Opinion e traduzido por Regiany Floriano


David Ludwig é professor de pediatria na Harvard Medical School e do Hospital Infantil de Boston, e autor do livro "Sempre com fome”? Controle as Compulsões, Recicle as seu células de gordura e perca peso permanentemente".

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