Vitamina D: mais não é melhor!

Já lhe disseram que você precisa de mais vitamina D?

Os profissionais de saúde estão cada vez mais conscientes sobre os riscos dos baixos níveis de vitamina D, mas muitos não estão sabem de que níveis altos de vitamina D também podem ter efeitos tóxicos. Leia mais para aprender sobre os riscos do excesso de suplementação, que fatores determinam o seu nível ideal de vitamina D, e as muitas razões para começar a se expor ao sol além de só pela vitamina D.


Texto do Chris Kresser, traduzido por Regiany Floriano. O original está aqui.


A vitamina D é essencial para a saúde. Praticamente todas as células do corpo têm um receptor para a vitamina D, que quando ligado à vitamina D, pode influenciar a expressão de mais de 200 genes (1, 2). A vitamina D promove a absorção de cálcio no intestino e mantém os níveis de cálcio e fosfato no sangue, a proteção contra a osteoporose, raquitismo, e fraturas ósseas (3, 4). É ela também que regula a função imunológica, o crescimento celular, e a função neuromuscular (5, 6).


Devido às múltiplas funções que a vitamina D desempenha no corpo, a deficiência desta vitamina solúvel em gordura é um verdadeiro motivo de preocupação. A deficiência de vitamina D tem sido associada com o aumento do risco de ataque cardíaco, câncer, diabetes, asma, e doença auto-imune (7, 8, 9, 10, 11, 12).

Nosso estilo de vida moderno limita a nossa exposição ao sol, e só conseguimos uma pequena quantidade de vitamina D pela dieta (13). Considerando-se o limite mínimo do intervalo de laboratório dos EUA de 30ng/ml, até 70 por cento dos norte-americanos são considerados deficientes (14, 15).


É muito bom que a conscientização sobre a deficiência de vitamina D venha aumentando, com cada vez mais médicos testando os níveis de vitamina D. No entanto, como muitos nutrientes, a vitamina D segue uma curva em forma de U, o que significa que ambos os níveis baixos e muito elevados estão associados com os resultados negativos de saúde (16). Infelizmente, poucos profissionais estão conscientes dos perigos de toxicidade da vitamina D, e muitos apenas testam apenas uma vez os níveis séricos de vitamina D e recomendam 5.000 ou 10.000 UI como suplemento diário aos seus pacientes.


Neste artigo, vou discutir os riscos de excesso de suplementação, porque que você deve receber a maior parte de sua vitamina D pela luz solar, e o raciocínio por trás da minha abordagem atual para a vitamina D.




Riscos do excesso de suplementação de vitamina D


Os níveis de vitamina D são medidos pela quantidade 25(OH)D no sangue. Vamos mergulhar ainda mais no metabolismo da vitamina D mais abaixo, mas por enquanto, precisamos apenas compreender que este é o precursor da vitamina D ativa e geralmente é considerado o marcador único e mais preciso para avaliar os níveis de vitamina D. A gama de referência de laboratório adequada do 25(OH)D seguida pelos EUA é de 30-74ng/ml, enquanto que o Conselho de Vitamina D sugere uma gama mais elevada de 40 a 80 ng/ml, com um alvo de 50 ng/ml (17).


Mas um grande corpo de evidências na literatura médica sugere claramente que os níveis ideais de vitamina D possam ser inferiores a esses números. Há pouca ou nenhuma evidência mostrando benefícios para níveis de 25(OH)D acima de 50 ng/ml, e cada vez mais evidências sugerindo que os níveis dessa magnitude possam causar danos. Consequências da toxicidade da vitamina D incluem ataque cardíaco, acidente vascular cerebral, pedras nos rins, dor de cabeça, náuseas, vômitos, diarreia, anorexia, perda de peso e baixa densidade óssea (18).


Além disso, na maioria dos estudos, tomar suplementos de vitamina D não diminui o risco de morte, doença cardiovascular, ou outras condições. Com base em uma revisão exaustiva de mais de 1.000 estudos em 2011, o Instituto de Medicina recomenda uma gama muito mais conservadora de 20 a 50 ng/ml (19).




Seu nível de vitamina D pode estar muito alto? Eu acho que sim.


Além de vitamina D: Os inúmeros benefícios da luz solar


A vitamina D é realmente apenas a ponta do iceberg quando se trata dos benefícios da luz solar. Um estudo recente de 20 anos seguiu 29,518 indivíduos e descobriu que aqueles indivíduos que evitavam a exposição ao sol tinham duas vezes mais probabilidade de morrer por todas as causas (21). Embora este estudo não tenha avaliado os níveis de vitamina D, as conclusões de outros estudos epidemiológicos sugerem que isso não possa ser explicado apenas pelo aumento da produção de vitamina D.


Na verdade, os seres humanos produzem vários importantes peptídios hormonais e “foto-produtos", quando a pele é exposta aos raios UVB da luz solar (22). Esses incluem:


- A p-endorfina: um opiáceo natural que induz o relaxamento e aumenta a tolerância à dor. (23, 24)


- Calcitonina peptídeo relacionado aos genes: um vasodilatador que protege contra a hipertensão, inflamação vascular, e estresse oxidativo. (25)


- Substância P: um neuropeptídio que promove o fluxo de sangue e regula o sistema imune em resposta a fatores de estresse agudo. (26)


- Hormônio adrenocorticotrópico: um hormônio polipeptídeo que controla a de liberação de cortisol pelas glândulas supra-renais, regulando assim o sistema imune e inflamação. (27)


-  Hormônio Melanócito-estimulante: um hormônio polipeptídeo que reduz o apetite, aumenta a libido, e também é responsável pelo aumento da pigmentação da pele. (27)


A exposição aos raios solares UVA também tem demonstrado benefícios, incluindo o aumento da liberação de óxido nítrico armazenado (28). O óxido nítrico é uma molécula de sinalização celular potente, que dilata os vasos sanguíneos e, assim, reduz a pressão arterial (29).


Em adição à produção de foto-produtos e liberação do óxido nítrico, a luz solar, também controla o ritmo circadiano. A exposição à luz brilhante durante o dia ativa os neurônios no núcleo supraquiasmático do hipotálamo, que envia sinais para a glândula pineal que regula a produção de melatonina. O rompimento do ritmo circadiano tem sido associado com desordens de humor, deficiências cognitivas, e síndrome metabólica (30, 31).


Níveis ideais de vitamina D dependem de muitos fatores


Então, quanto você precisa? No primeiro Simpósio Paleo anual IHH-UCSF em São Francisco este ano, o bioquímico nutricional Dr. Chris Masterjohn resumiu evidências que sugerem que os níveis ideais de vitamina D podem variar de população para população, apesar do fato de que não exista atualmente apenas uma faixa de referência utilizada para todos pacientes.


A etnia é um fator importante a ser considerado. Por exemplo, os negros têm níveis inferiores de 25(OH)D em relação aos brancos nos EUA, no entanto, eles normalmente têm a densidade óssea mineral muito mais elevada. Além disso, os não-caucasianos têm níveis de 25(OH)D menores do que os brancos, mesmo em suas latitudes ancestrais (32). A partir destes e outros estudos, foi sugerido que as pessoas com antecedência não-branca possam ser adaptadas a um nível ideal inferior de 25(OH)D do que as pessoas com antecedência branca.


Outro fator que influencia a toxicidade é o estado nutricional. As vitaminas solúveis em gordura A, D, K e funcionam sinergicamente, e uma quantidade adequada de vitamina A e K pode proteger contra os efeitos tóxicos do excesso de vitamina D (33). Níveis suficientes de potássio e de magnésio, também têm demonstrado proteger contra a toxicidade da vitamina D (34). Infelizmente, a maioria das pessoas é deficiente nestes micronutrientes no mundo desenvolvido, tornando-se mais suscetíveis à toxicidade da vitamina D.


E quanto a faixa ideal de vitamina D do ponto de vista evolutivo? Um estudo sobre populações que tradicionalmente vivem como caçadores-coletores na África Oriental descobriu que as tribos Masai e Hadzabe tinham concentrações médias de 25(OH)D de 48 ng/ml e 44 ng/ml, respectivamente (35). Estas populações indígenas recebem uma grande quantidade de raios solares, mas também têm o consumo muito elevado de vitaminas A e K, sugerindo que estes níveis conduzam, provavelmente, em direção a extremidade superior do intervalo ideal para a maioria das pessoas no mundo moderno.




Usando os níveis de hormônio da paratireoide para individualizar os testes de vitamina D


Como vimos acima, os níveis de laboratório de 25(OH)D devem variar de acordo com a população, genética e o estado nutricional. Na ausência de intervalos específicos, precisamos de outros marcadores biológicos que possam ajudar a esclarecer o status da vitamina D. Para encontrar estes marcadores biológicos, precisamos analisar como a vitamina D é metabolizada.


Quando os raios UVB entram em contato com a epiderme da pele, a vitamina D é produzida a partir do 7-diidrocolesterol. Esta vitamina D, então desloca-se no sangue até o fígado, onde sofre hidroxilação primária (a adição de um grupo hidroxil, que consiste de um átomo de oxigênio e um átomo de hidrogênio) no átomo de carbono 25. O resultado é o 25(OH)D, que é o metabólito mais amplamente utilizado para avaliar o estado nutricional de vitamina D. Este composto circula no sangue até chegar nos rins onde sofre hidroxilação secundária no primeiro átomo de carbono, resultando em 1,25(OH)2D, a forma ativa da vitamina D (36).


Você pode estar se perguntando: por que não testar a forma ativa? Embora certamente informativo, a quantidade de vitamina D ativa não é o reflexo direto do estado nutricional de vitamina D porque a etapa de hidroxilação secundária é estreitamente regulada pelo hormônio da paratireoide (37). Quando as glândulas paratireoides detectam uma queda dos níveis de cálcio no sangue, elas secretam hormônio da paratireoide (PTH). O PTH estimula a formação de vitamina D ativa, o que aumenta a absorção de cálcio no intestino delgado e a liberação de cálcio a partir dos ossos, numa tentativa de restaurar os níveis normais de cálcio no sangue (38). Altos níveis de PTH podem, portanto, conduzir a  alta de 1,25(OH)2D, baixa densidade mineral óssea, e risco aumentado de de fraturas e osteoporose (39).


Com uma compreensão básica desta via, podemos usar o PTH, o cálcio e a vitamina D3 ativa como marcadores para nos dar uma imagem mais completa do status da vitamina D de alguém. Em sua apresentação no IHH-UCSF, Dr. Masterjohn sugeriu que os níveis séricos de PTH acima de 30 pg/ml podem ser um indicativo de deficiência de vitamina D biológica quando níveis de 25(OH)D estiverem no limite inferior. Por outro lado, se os  níveis de 25(OH)D estiverem no limite inferior ou mesmo ligeiramente abaixo do intervalo de referência de laboratório (por exemplo, de 25 a 30 ng/ml), mas se o PTH estiver inferior a 30 pg/ml, é pouco provável que o paciente esteja com deficiência de vitamina D, e a suplementação não se justifica.


Em vez de focar no próprio nível de 25(OH)D, o que realmente queremos alcançar é a supressão máxima de níveis de PTH para a homeostase do cálcio ideal e da saúde óssea. Além desse nível, mais vitamina D não significa ser necessariamente melhor.




Conclusão


Com base na minha avaliação da literatura e minha própria experiência clínica, acredito que o alcance funcional de 25(OH)D é de cerca de 35 a 60 ng/ml. No entanto, eu não posso afirmar que não haja variação significativa entre as populações. Para aqueles com ascendência não-branca, o intervalo ideal pode ser um pouco menor. Para aqueles com doença auto-imune, o intervalo ideal pode ser um pouco maior (45 a 60 ng/ml) para maximizar os benefícios da imuno-regulação pela vitamina D. Aqui estão algumas recomendações para otimizar o seu nível de vitamina D.

1 - Não suplementar cegamente.

Se o seu nível de 25(OH)D for:
  • Inferior a 20 ng/ml: você provavelmente precisará de uma combinação de exposição aos raios UV, óleo de fígado de bacalhau, e um suplemento de vitamina D
  • De 20 a 35 ng/ml: avalie seu nível de PTH. Se o PTH estiver adequadamente suprimida (menos de 30 pg/ml), a complementação é provavelmente desnecessária.
  • De 35 a 50 ng/ml: continue com a sua dieta atual e estilo de vida para manter a quantidade adequada de vitamina D
  • superior a 50 ng/ml: tente reduzir seus suplementos de vitamina D, e certifique-se que você está recebendo quantidades adequadas de outras vitaminas solúveis em gordura para proteger contra a toxicidade




2 - Realize os testes novamente!

Verifique os seus exames após três a quatro meses para ver se atingiu os níveis adequados, se você tem alcançado ou mantido o nível de vitamina D. Se não, ajuste sua dieta, o estilo de vida, ou se os suplementos estão de acordo e verifique novamente depois de outros três a quatro meses.




3 - Pegue luz solar ou exponha-se aos raios UV como sua principal forma de vitamina D.


Aproveite os inúmeros benefícios da luz solar além da simples produção subcutânea de vitamina D, e reduza a sua chance de alcançar níveis tóxicos. Gastar cerca de 15 a 30 minutos, ou metade do tempo que a sua pele leva para ficar avermelhada sob a luz solar direta. Os filtros solares não só bloqueiam a produção de vitamina D, mas também todos os outros fotoprodutos benéficos produzidos na pele em resposta ao UVB.




4 - Cuide dos seus micronutrientes para proteger contra a toxicidade.

Experimente o óleo de fígado de bacalhau como uma boa fonte de vitaminas A e D e a gordura da manteiga rica em vitamina ou a manteiga de animais criados a pasto e a ghee como fonte de vitamina K. As batatas doces, banana, banana verde e abacate todos contêm quantidades significativas de potássio. Considere a suplementação com magnésio, pois é muito difícil obter quantidades adequadas deste micronutriente a partir dos alimentos devido ao esgotamento do solo.


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Quem toma sol, vive mais!

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