Pedaços menores, dentes menores


Será que os homens das cavernas roíam as raízes e arrancavam pedaços das presas nos dentes?
Segundo os pesquisadores, eles aprenderam a reduzir os tamanhos dos pedaços da comida e com isto houve uma evolução da espécie, favorecendo a transição para dentes e mandíbulas menores.


Mastigue esta: Cortar a carne ajudou a moldar os seres humanos modernos 

Texto original aqui, tradução Regiany Floriano


As boas maneiras e os cozinheiros qualificados devem estar satisfeitos: Os nossos primeiros ancestrais humanos provavelmente dominaram a arte de cortar e fatiar há mais de 2 milhões de anos atrás. Isso não só reduz os pedaços de carne e legumes, deixando-os muito mais fáceis de serem digeridos crus e com menos mastigação, como também nos ajudaram ao longo do caminho para nos tornarmos seres humanos modernos, como os pesquisadores informaram nos últimos dias.


E os nossos antepassados adquiriram essas habilidades pelo menos 1,5 milhões de anos antes da arte de cozinhar ter se tornado uma forma comum de preparar a comida, dizem os pesquisadores.

Mastigar, ao que parece, exige muito tempo e energia, dizem Katherine Zink e Daniel Lieberman, biólogos evolutivos da Universidade de Harvard. Eles recentemente começaram a medir com precisão quanto esforço é necessário para mastigar os alimentos crus, e em que medida as ferramentas de pedra simples poderiam ter facilitado o trabalho.

"Toda vez que eu saía para jantar, eu assistia as pessoas mastigando" disse Lieberman. "E, às vezes, eu realmente contava quantas vezes elas mastigavam".
Não é apenas um hobby. O interesse de Lieberman quer chegar a algumas questões básicas de como os seres humanos evoluíram.

Os cientistas sabem há muito tempo que o Homo erectus, um ancestral dos humanos modernos, que viveram há cerca de 2 milhões de anos atrás, evoluíram com um corpo e cérebro maiores do que os hominídeos anteriores, e teriam a necessidade de muito mais energia diária para sobreviver. Mas a mandíbula e os dentes do H. erectus eram muito parecidos com os nossos dentes de hoje - significativamente menores e menos poderosos do que os do Australopithecus afarensis, ou outros hominídeos de épocas anteriores.

Uma dieta que incluía carne cozida teria fornecido essa energia prontamente, sem a necessidade de caninos afiados e grandes dentes moedores. Mas a evidência da pesquisa é bastante clara, que cozinhar não era comum até cerca de 500.000 anos atrás, diz Lieberman. Então, como o H. erectus obtinha as calorias necessárias?

Para testar a antiga hipótese que de uma simples transformação dos alimentos pode ser a resposta, Zink e Lieberman convidaram alguns colegas de Harvard ao que Zink chamou de "um café de laboratório", e serviram aos convidados pequenas porções de cenoura, beterraba, batata doce, geleias e carne de cabra. A comida foi servida de várias formas, tanto assada ou crua; cortada, batida ou deixada em pedaços.

"Se eu servisse carne de cabra crua," Lieberman diz: "você mastigaria, e nada iria acontecer. Como várias carnes de caça selvagens, a carne de cabra tende a ser pegajosa”, diz ele. “Mastigar um pedaço grande o deixa mais elástico, e não se fragmenta facilmente. Mas se você cortar a carne de cabra em pedaços menores, a sua capacidade de mastigar seria melhorada drasticamente", diz ele.

Todos os voluntários (14 para os vegetais e apenas 10 para a carne de cabra) usaram alguns pequenos sensores aderidos nos seus rostos, para detectar e contar as contrações de várias fibras musculares enquanto mastigavam cada mordida do alimento, a ponto de engolir. Os cientistas então traduziram essas contrações em uma medida de esforço muscular, e também verificaram como a comida foi fragmentada.

Seus resultados, publicados na revista Nature, sugerem que ao comer uma dieta composta de um terço da carne, se os primeiros seres humanos partissem os legumes antes de comê-los, e cortavam a carne, seria necessário mastigar 17 por cento menos e com 26 por cento menos força do que se começassem com grandes pedaços de alimentos. Cada pequeno movimento e ranger de dentes da mandíbula era contado: Simplesmente ter uma pedra afiada para cortar a carne iria reduzir o número de "mastigações" necessárias para 2,5 milhões ao longo de um ano, disse Lieberman.

"Eu acho isto incrível", diz ele, "pensar que uma simples ferramenta de pedra pode ter tido um efeito enorme sobre a eficácia de mastigar um pedaço de carne".


Ele e Zinc consideram possível que os benefícios de comer carne e comida fragmentadas favoreceram a transição para dentes e mandíbulas menores.

Mas, como eles escrevem em seu estudo, parece mais provável que o uso de ferramentas e o consumo de carne simplesmente reduziram a pressão evolutiva para grandes e poderosas mandíbulas e dentes afiados, permitindo assim que a seleção diminuísse o tamanho facial e dental para outras funções, tais como a produção da fala, locomoção, termorregulação, ou talvez, até mesmo mudanças no tamanho e forma do cérebro." 


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