Sempre faminto? Aqui está o motivo:

Nas últimas décadas a população em geral está cada vez mais gorda.
As dietas desafiam cada vez mais a força de vontade dos pobres mortais.
"Quem não emagrece é por que não se empenhou o bastante..."
Depois de atingir o peso (ou chegar perto do peso desejado) o problema é manter-se lá!
O que está errado?



Por David S. Ludwig e MARK I. FRIEDMAN

Artigo original publicado no The New York Times em 16 de maio de 2014 e traduzido por Regiany Floriano.


Na maior parte do século passado, o nosso entendimento da causa da obesidade foi baseado em leis físicas imutáveis. Especificamente, a primeira lei da termodinâmica, que determina que a energia não pode ser criada nem destruída. Quando se trata de peso corporal, isso significa que as calorias ingeridas, menos as calorias gastas, resulta em calorias armazenadas. 

Cercados por alimentos tentadores, comemos demais, consumindo mais calorias do que podemos queimar, e o excesso é depositado na forma de gordura. A solução simples é exercer uma força de vontade fenomenal e comer menos.

O problema é que esta tática não funciona, pelo menos não para a maioria das pessoas a longo prazo. Em outras palavras, sua resolução de Ano Novo para perder peso, provavelmente não vai durar toda a estação, e muito menos afetar a forma como você se vê em trajes de banho. Muitos de nós estamos mais obesos do que nunca, apesar do foco sobre o equilíbrio de calorias por parte do governo, das organizações da nutrição e da indústria alimentar.

Mas e se estivermos confundido causa e efeito? E se não for o fato de comer demais que nos faz engordar, mas sim o processo de engorda que nos faz comer demais?
Quanto mais calorias presas no tecido adiposo, menos estão circulando na corrente sanguínea para satisfazer as necessidades do corpo. Se olharmos dessa maneira, é um problema de distribuição: temos uma abundância de calorias, mas elas estão no lugar errado. Como resultado, o corpo precisa aumentar a sua ingestão. Ficamos com mais fome porque estamos ficando mais gordos.

É como o edema, uma condição médica comum em que o líquido dos vasos sanguíneos extravasa para os tecidos vizinhos. Não importa quanta água a pessoa beba, quem tem edema pode sentir uma sede insaciável porque o líquido não permanece no sangue, onde ele é necessário. Da mesma forma, quando as células de gordura sugam muito combustível, as calorias dos alimentos promovem o crescimento de tecido de gordura em vez de servir as necessidades de energia do corpo, provocando excessos em todos, até nas pessoas mais disciplinadas.

Discutimos essa hipótese em um artigo recentemente publicado no JAMA, o jornal da Associação Medica Americana. De acordo com este ponto de vista alternativo, fatores no ambiente provocam as células de gordura em nossos corpos para absorver e armazenar quantidades excessivas de glicose e outros compostos ricos em calorias. Desde que menos calorias estejam disponíveis para abastecer o metabolismo, o cérebro diz ao corpo para aumentar a ingestão de calorias (sentimos fome) e poupar energia (o nosso metabolismo fica mais lento). Comer mais resolve este problema temporariamente, mas também acelera o ganho de peso. Cortar calorias reverte o ganho de peso por um tempo curto, fazendo-nos pensar que temos o controle sobre o nosso peso corporal, mas de forma previsível, isto aumenta a fome e retarda o metabolismo ainda mais.

Considere a febre como uma outra analogia. Um banho frio irá reduzir a temperatura do corpo temporariamente, mas também desencadeará respostas biológicas - como calafrios e constrição dos vasos sanguíneos – que fará esforço para aquecer o corpo novamente. Em certo sentido, a visão convencional da obesidade como um problema de equilíbrio de calorias é como conceituar a febre como um problema de equilíbrio térmico; tecnicamente não é errado, mas não muito útil, porque ignora o controlador biológico fundamental do ganho de peso.

É por isso que as dietas que dependem da redução conscientemente das calorias costumam não funcionar. Nos relatórios de pesquisa de todo o país, apenas um em cada seis adultos com sobrepeso e obesidade, conseguiu manter a perda de 10 por cento do peso corporal durante, pelo menos, um ano (e esta conquista relativamente modesta pode ser exagerada, porque as pessoas tendem a superestimar seus sucessos em pesquisas auto relatadas). Em estudos de Dr. Rudolph Leibel L. da Columbia e seus colegas, quando participantes magros e obesos da pesquisa foram levados à subnutrição, a fim de fazê-los perder 10 a 20 por cento do seu peso, sua fome aumentou e metabolismo despencou. Por outro lado, superalimentação acelerou o metabolismo.

Tanto as respostas sobre o comer de mais como o comer de menos, tendem a empurrar o peso de volta para onde estava no começo - levando alguns pesquisadores da obesidade a pensar em termos de um "set point" do peso corporal, que parece ser pré-determinado pelos nossos genes.

Mas se as respostas biológicas básicas vão contra as alterações no peso corporal, e os nossos pontos de ajuste são pré-determinados, então por que as taxas de obesidade - o que para os adultos, estão quase três vezes o que eram na década de 1960 - aumentaram tanto? O mais importante é o que podemos fazer sobre isso?

Como se constata, muitos fatores biológicos afetam o armazenamento das calorias nas células de gordura, incluindo a genética, níveis de atividade física, sono e estresse. Mas um tem um papel indiscutivelmente dominante: o hormônio insulina. Sabemos que o tratamento com insulina para o diabetes provoca o excesso de ganho de peso, e a deficiência de insulina provoca a perda de peso. E de tudo o que comemos, os carboidratos altamente refinados e digeridos rapidamente são os que produzem mais insulina.

Por esta maneira de pensar, a crescente quantidade e processamento dos carboidratos na dieta americana aumentou os níveis de insulina, colocou as células de gordura em marcha acelerada de armazenamento e provocou respostas biológicas que promoveram a obesidade em um grande número de pessoas. Como uma infecção que eleva o ponto de ajuste da temperatura corporal, o consumo elevado de carboidratos refinados - chips, biscoitos, bolos, refrigerantes, cereais matinais açucarados e até mesmo arroz branco e pão - aumentou o peso corporal de toda a população.


Uma das razões por que nós consumimos tantos carboidratos refinados hoje, é porque eles foram adicionados aos alimentos processados no lugar das gorduras - que foi o principal alvo dos esforços de redução de calorias desde a década de 1970. A gordura tem cerca de duas vezes mais calorias que os carboidratos, mas as dietas de baixa gordura são as menos eficazes nas intervenções comparáveis, de acordo com várias análises, incluindo uma apresentada em uma reunião da Associação Americana do Coração este ano.

Um estudo recente realizado por um de nós, Dr. Ludwig, e seus colegas publicaram no JAMA examinou 21 jovens adultos com sobrepeso e obesos depois de terem perdido de 10 a 15 por cento do seu peso corporal, em dietas que vão desde o baixo teor de gordura até o baixo carboidrato. Apesar de consumir o mesmo número de calorias em cada dieta, os indivíduos queimaram cerca de 325 calorias a mais por dia na dieta do baixo carboidrato do que na dieta de baixa gordura - o valor da energia gasta em uma hora de atividade física de intensidade moderada.

Outro estudo publicado pelo Dr. Ludwig e seus colegas na revista The Lancet, em 2004, sugeriu que uma dieta de baixa qualidade pode resultar em obesidade, mesmo quando era baixa em calorias. Ratos alimentados com uma dieta com carboidratos de rápida digestão (chamada de "índice glicêmico" alto), ganharam 71 por cento mais gordura do que os seus homólogos que comiam mais calorias, embora sob a forma de carboidratos de digestão lenta.

Essas ideias não serão verdadeiramente novas. A noção de que comer demais, porque estamos engordando existe há pelo menos um século, como descrito por Gary Taubes em seu livro "Boas Calorias, Más Calorias". Em 1908, por exemplo, um clínico geral alemão chamado Gustav von Bergmann descartou o ponto de vista do balanço energético da obesidade, e a hipótese de que ele sugeriu em vez disso, seria causada por um distúrbio metabólico que ele chamou de "lipofilia", ou "amor pela gordura."

Mas essas teorias têm sido geralmente ignoradas, talvez porque elas desafiam atitudes culturais arraigadas. A ênfase popular no balanço calórico reforça a crença de que temos o controle consciente sobre o nosso peso, e que a obesidade representa um fracasso pessoal por causa da ignorância ou da força de vontade inadequada.

Além disso, a indústria de alimentos - que tem lucros enormes com os produtos altamente processados derivados de milho, trigo e arroz - invoca o balanço calórico como a sua primeira linha de defesa. Se todas as calorias são iguais, então não há alimentos ruins, e assim, as bebidas açucaradas, alimentos lixo e similares são bons, com moderação. É simplesmente uma questão de controle da porção. O fato é que isto raramente funciona é e tomado como prova de que pessoas obesas não têm força de vontade, e não que a ideia em si é que possa estar errada.

Infelizmente, as pesquisas existentes não podem fornecer um teste definitivo de nossa hipótese. Vários ensaios clínicos proeminentes não relataram diferença na perda de peso quando se comparam as dietas que supostamente diferiam em proteínas, carboidratos e gordura. No entanto, estes ensaios tinham grandes limitações; no final, os participantes relataram que não haviam cumprido as metas para seguir as dietas prescritas. Nós não iríamos descartar um tratamento de câncer com grandes chances de salvar vidas com base em resultados negativos, se os indivíduos da pesquisa não tomaram a droga como deveriam.

Há maneiras melhores para fazer esta pesquisa. Os estudos devem fornecer aos participantes pelo menos alguns de seus alimentos, até facilitar a sua adesão às dietas. Dois estudos que fizeram isso - um pelo Grupo Direto em 2008 e outra pelo Projeto Diógenes em 2010 - relataram benefícios substanciais associados com a redução dos carboidratos de fácil digestão em comparação com dietas convencionais. Precisamos investir muito mais em pesquisas. Com o custo econômico anual da diabetes - apenas uma das complicações relacionadas com a obesidade - previsto para chegar a meio trilhão de dólares em 2020, alguns bilhões de dólares para uma pesquisa de última geração em nutrição seria um bom investimento.

Se esta hipótese estiver correta, isto terá implicações imediatas na saúde pública. Isso significaria que o foco de décadas sobre a restrição calórica foi destinado ao fracasso para a maioria das pessoas. Informações sobre o conteúdo de calorias continuam sendo relevantes, não como uma estratégia para perda de peso, mas para ajudar as pessoas a evitarem comer alimentos altamente processados, carregados com carboidratos digeridos muito rapidamente. E o tratamento da obesidade seria mais apropriado se concentrando na qualidade da dieta em vez da quantidade de calorias.

As pessoas no ambiente alimentar moderno parecem ter maior controle sobre o que comem do que o quanto. Com o consumo reduzido de grãos refinados, concentrados de açúcar e produtos à base de batatas e algumas outras escolhas sensíveis de estilo de vida, nosso sistema interno de controle de peso corporal deve ser capaz de fazer o resto. Eventualmente, poderíamos trazer o ponto de ajuste de peso corporal de volta aos níveis pré-epidêmicos. Tratando o mecanismo biológico básico do comer demais pode ser uma solução muito mais prática e eficaz para obesidade do que a contagem de calorias.



David S. Ludwig dirige o Centro de Prevenção de Obesidade Fundação New Balance, no Hospital Infantil de Boston e é professor de pediatria na Harvard Medical School. Mark I. Friedman é vice-presidente de pesquisas da Iniciativa de Ciência de Nutrição.


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