Confissões de um dos Pioneiros da Dieta Paleo

Desde 1985 Melvin KonnerAntropologista e especialista em Biologia Comportamental, contribuiu substancialmente para o desenvolvimento do conceito de uma dieta paleolítica e seu impacto na saúde, publicando juntamente com Stanley Boyd Eaton, e mais tarde também com sua esposa Marjorie Shostak e com Loren Cordain. 



Melvin Konner , cujo trabalho sobre os hábitos alimentares ancestrais, conduziu à dieta paleo low-carb, nos dá uma versão atualizada do que deveríamos estar comendo.

Um bosquímano da comunidade Khomani San uma pose tradicional no deserto do sul da Kalahari na África do Sul. Nossos ancestrais comiam carne, peixe e alimentos de origem vegetal na natureza, mas em que proporções?

Artigo publicado no The Wall Street Journal e traduzido por Regiany Floriano

Por Melvin Konner
20 de janeiro de 2016

Eu tenho uma espécie de participação na "dieta paleo" da moda, cujos fanáticos pressionam seus discípulos para manter todos os carboidratos a um punhado por dia. Eu ajudei a originar uma versão da ideia - sem saber no que iria se transformar. Pense no ambicioso cientista de Mary Shelley [N.T.: autora de Frankstein] criando algo que voltaria para assombrá-lo.

Em 1985, meu amigo e colega Boyd Eaton e eu, escrevemos um artigo intitulado “Nutrição Paleolítica: A consideração de sua natureza e asimplicações atuais", que apareceu no The New England Journal of Medicine. Nós raciocinamos que se os outros animais têm certas dietas que são naturais para eles – os amantes de animais vão reconhecer essa ideia, então os seres humanos podem ter também. Mas onde encontrar provas? O registro arqueológico do que nós comemos durante a evolução são escassos. Nossos ancestrais comiam carne, peixe e alimentos de origem vegetal na natureza, mas em que proporções?

Nós compilamos dados de estudos do século 20, do que recentes caçadores-coletores comiam e tentamos retratar. Um exemplo foi o povo com o qual eu tinha vivido no Botswana, normalmente chamado Bosquímanos. Os Antropólogos estimavam que sua dieta fosse de 70% alimentos vegetais - uma surpresa para aqueles que pensavam nos seres humanos ancestrais como basicamente caçadores. Calculamos a média mundial dos caçadores-coletores ficaria em 65%, mas agora sabemos que esse número estava muito alto. Minha própria estimativa hoje é 50-50, mas outros, incluindo Boyd, consideram que a dieta incluiu mais carne e peixe.

Seja qual for a razão, a nossa teoria dizia que os primeiros seres humanos que fizeram isso, sobrevivendo ao desafio das infecções infantis - o que elevava a taxa de mortalidade infantil e baixava a média da expectativa de vida - teriam menor probabilidade de sofrerem as pragas da vida moderna: diabetes, doença do coração, acidente vascular cerebral, câncer. Pensamos ainda que uma incompatibilidade entre o estilo de vida para que os nossos genes foram adaptados, e os hábitos atuais ajudam a explicar estas novas epidemias. Os seres humanos evoluíram em um mundo muito diferente do nosso. O lema dos nossos antepassados era para comer o quanto pudesse, quanto mais calorias melhor, o que não seria prejudicial, quando cada caloria era necessária e o espectro de alimentos era mais saudável.

Bife e legumes crus. Lema dos nossos antepassados era para comer enquanto você podia, quanto mais calorias melhor, o que não seria muito prejudicial, quando você precisava de cada caloria e o espectro de alimentos era mais saudável.

A nossa argumentação encontrou várias críticas bem fundamentadas. Em 1985, os cientistas acreditavam que poucas mudanças genéticas ocorreram desde que todos éramos caçadores e coletores, há uns 10.000 anos atrás. Agora sabemos que uma grande quantidade de genes mudou. Uma nova descoberta fascinante é que dentro dos últimos mil anos, os Esquimós desenvolveram genes de enzimas para processar os ácidos graxos dos peixes do Ártico.

Como podemos saber se não nos adaptamos à dieta americana comum? Porque biscoitos e refrigerantes estão à disposição há um tempo muito curto, para a evolução poder lidar com eles. Então esta confusão está bem viva.

Ainda assim, os seres humanos são onívoros. Nem o conselho dos cientistas "carne-como-um-condimento" como sendo saudável para o coração, nem a crença nos "carboidratos-como-um-condimento", que agora passa por "paleo" é convincente para mim. Em um artigo de 2014 no Journal of Human Evolution, Amanda Henry e seus colegas descobriram que até mesmo os nossos primos neandertais tomavam caldo de cevada, junto com seus bifes. Uma vez considerados carnívoros extremos, os neandertais seguiam, na verdade, uma dieta oportunista, assim como nossos próprios ancestrais diretos.

Dados recentes sobre estas questões me deixam mais confortável hoje dizendo o que não comer. Nossos antepassados não tinham carboidratos refinados, que estão nos matando. Seríamos mais sensatos ao limitar o sal e a gordura saturada, pouco presente nas presas dos nossos antepassados, e as fibras e os ácidos graxos ômega-3 parecem ser bons. A maioria dos seres humanos deve evitar os laticínios; muitos devem evitar trigo. Descubra se você é um deles. Exercite-se. É isso!

Os antropólogos sabem que as pessoas são obcecadas por dietas. Dietas kosher e halal são mais sobre disciplina, não saúde. Centenas de milhões na Índia nunca deixaram um pedaço de carne cruzar seus lábios. Todas estas estratégias - as dietas paleo de baixo carboidrato, também - parecem ser compatíveis com a vida e a saúde. Dentro desses limites, escolha o seu veneno. Com cuidado, você pode prolongar a sua vida, mas, até onde eu sei, ninguém vive para sempre.

  
________________

Siga MENOS RÓTULOS no Facebook e Instagram