Michael Pollan em "Como a América estragou tudo sobre alimentação"


Uma entrevista com Michael Pollan onde ele destaca a simplicidade e eficácia do Guia Alimentar Brasileiro em comparação com as diretrizes alimentares americanas.


Texto traduzido por Regiany Floriano. O original está aqui.

por Julia Belluz em 16 de dezembro de 2015

Qualquer dia desses, o governo dos EUA irá determinar as novas diretrizes alimentares dizendo aos Americanos o que devemos comer. Estas instruções saem a cada cinco anos, e são usadas por médicos e nutricionistas para dar orientações de dieta, pelas escolas para planejar os cardápios das merendas das crianças, e pelos fabricantes para calcular a informação nutricional nas embalagens dos alimentos.

Mas o processo por trás destas recomendações é... obscuro.

Um grupo de consultores científicos nomeados pelo governo levantam os dados sobre nutrição durante meses e, em seguida, entregam essas informações aos funcionários do Departamento de Agricultura e Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, sob a forma de um relatório de 600 páginas. Esses dados são então discutidos por meses, com a participação de representantes do setor agrícola e outros. Finalmente, as orientações emergem.

Não surpreendentemente, essas diretrizes não refletem necessariamente a melhor ciência - são um resultado do lobby e compromissos políticos. E, historicamente, eles fazem um péssimo trabalho em dar aos americanos informações claras sobre como comer melhor, geralmente super complicam as coisas simples que conhecemos sobre como ser saudável. Em vez de "reduza a carne vermelha" por exemplo, as orientações dizem coisas como: "Consuma menos de 10 por cento de calorias provenientes de gorduras saturadas."

Não é de se admirar que os americanos tenham o que o jornalista e defensor da comida, Michael Pollan, chama de "transtorno alimentar nacional". Em livros como "O Dilema do Onívoro" e "Em Defesa da Comida", Pollan expôs a interseção complicada de alimentos, ciência, cultura e política, enquanto aconselha delicadamente os americanos sobre como comer melhor. (Ele também tem um novo documentário da PBS que sai em 30 de dezembro sobre a nova ciência dos alimentos e redescobrindo os prazeres de comer.)

Eu conversei com Pollan sobre como a América estragou tudo sobre alimentação, sobre suas dicas para passar na mercearia evitando o que ele chama de "substâncias como alimentos ", e por que outros países, como o Brasil, acertaram na alimentação.

Julia Belluz

Nas novas diretrizes alimentares, provavelmente vamos ver os conselhos complicados sobre cortes em certos nutrientes como as gorduras saturadas. Mas parece que os americanos poderiam usar conselhos muito mais simples para comer de forma mais saudável. O que você propõe?


Michael Pollan

Não se perca nos detalhes. É muito importante manter um olho no panorama geral. Comer comida de verdade é a coisa mais importante que você pode fazer se você estiver preocupado com a sua saúde. A quantidade precisa de vários nutrientes realmente não vai fazer a diferença. Essas recomendações muito específicas, são provavelmente mais úteis para instituições que precisam que seus programas de alimentação estejam em conformidade com os padrões federais - como o programa de merenda escolar.

[As recomendações] também são importantes para a indústria, que adora lançar outra campanha em torno dos nutrientes, porque isso leva a oportunidades para novos apelos de saúde. Por exemplo, se desta vez a "adição de açúcar" cria uma nova categoria de alimentos que não existia no passado, vai ser uma ótima oportunidade para os produtores de alimentos vangloriarem-se sobre o quão pouco açúcar adicionado eles têm em seus produtos. Mas isso não vai transformar alimentos não saudáveis em alimentos saudáveis.

Em geral, qualquer conselho baseado em nutrientes torna-se mais uma desvio do projeto realmente importante que é o de se concentrar em alimentos.

Julia Belluz
Como chegamos a estragar tudo sobre a alimentação?

Michael Pollan
O Departamento de Agricultura, que é parcialmente responsável pelas diretrizes alimentares, tem um conflito de interesses no coração da sua missão. Sua missão é promover a venda de produtos agrícolas dos EUA, vender mais alimentos, enquanto as diretrizes alimentares são para nos ajudar reduzir o apetite para determinados alimentos.

A ideia de que o Departamento de Agricultura não tem nada a ver com as recomendações sobre a nutrição para os americanos é absurda. É um produto da história e da burocracia em Washington.

Julia Belluz
Nós também temos um grupo de consultores científicos de peso sobre as orientações. Mas eles não participam das decisões sobre o projeto definitivo. Por quê?

Michael Pollan
Porque vários interesses precisam colocar suas mãos sobre as orientações políticas. Eles já foram dispensados da recomendação de que a sustentabilidade precisaria fazer parte de orientações nutricionais. Aparentemente, isso é uma impossibilidade política.

Julia Belluz
A falta de orientação para os americanos sobre quanto de carne comer, pode ser um caso de estudo desse problema.

Michael Pollan
Voltando em 1977 [o então senador George] McGovern tentou falar sobre a redução do consumo de carne com suas metas dietéticas para os EUA - o primeiro conjunto de orientações nutricionais do país. Sua recomendação foi muito simples em Inglês declarado: Coma menos carne.

Essa clareza foi uma afronta para a indústria da carne. Ele foi forçado a retirá-la e renegociar as orientações com a indústria, e o que eles decidiram que poderiam concordar, foi dizer às pessoas para "escolher os alimentos que reduzissem a sua ingestão de gordura saturada", uma recomendação que tinha a virtude de ser incompreensível para a maioria dos americanos. Ele também converteu o texto sobre os alimentos integrais como a carne, para um sobre nutrientes.

Julia Belluz
Outros países parecem estar fazendo um trabalho muito melhor no que diz respeito às recomendações sobre como comer, como é o caso do Brasil, que dá conselhos simples às pessoas - cozinhar mais vezes em casa, comer mais frutas e vegetais, e comer menos carne.

Michael Pollan
Isso é um caso interessante. Os brasileiros tentaram revolucionar todo o conceito de orientações nutricionais e deixaram de falar sobre nutrientes completamente. Eles não falam apenas sobre alimentos e ciência, mas sobre a cultura alimentar.

Eles têm recomendações sobre como você deve comer, não apenas sobre o que comer, então eles incentivam os brasileiros a comerem com outras pessoas, por exemplo. O que isso tem a ver com saúde? Acontece que tem tudo a ver com a saúde. Sabemos que fazer lanches e comer sozinho são prejudicais para a saúde.

Julia Belluz
O que seria necessário para ver as diretrizes, como as do Brasil nos EUA?


Michael Pollan
Seria ver os alimentos por uma lente diferente. A mentalidade que produziu essas diretrizes brasileiras é influenciada tanto pela cultura, como pela ciência - uma ideia muito estranha para nós. Mas a comida não é apenas sobre a ciência. A conclusão incorporada no processo aqui é que é estritamente um processo científico, uma questão de combustível. Comer é essencialmente uma negociação entre quem come e um monte de produtos químicos lá fora. Isso é um erro.

Temos também uma indústria de alimentos muito poderosa, que se preocupa profundamente com o que o governo diz ao público sobre os alimentos. Eles não querem que ninguém mais  fale com o público sobre alimentos, de modo que possam contradizer as suas próprias mensagens. Então, eles estão lá pressionando. Quando o governo está decidindo sobre as diretrizes para a merenda escolar, a indústria está na sala, certificando-se a batata não vai ser arremessada e receberá o mesmo respeito concedido aos vegetais.

Julia Belluz
Será que isso contribuirá para o que você descreveu como "transtorno alimentar nacional" dos Estados Unidos?

Michael Pollan
Parte da razão pela qual temos um transtorno alimentar é por causa da ideologia do "nutricionismo" que trazemos para comida. Há uma longa história por trás dessa abordagem "científica". Fiquei surpreso ao descobrir que "a alimentação científica" era um termo jogado na década de 1850 e 60. A idéia era que deveríamos comer em uma base mais científica. Basicamente, foi uma maneira de forçar imigrantes a comerem o que os brancos anglo-saxões comiam. Parte dessa obsessão também traça a nosso puritanismo: A idéia de que você iria comer por prazer é uma idéia desconfortável para as pessoas desta cultura.

Julia Belluz
Seu aforismo - "Coma comida. Principalmente plantas. Não muito" - Criado há pouco menos de uma década atrás, continua a ser relevante. Você pode falar um pouco sobre isso?

Michael Pollan
Existem algumas maneiras diferentes de olhar para isto. O que significa realmente "comer comida"? Significa comer os tipos de coisas as pessoas têm comido por um longo tempo, antes da ciência alimentar "melhorá-las".

Os alimentos consumidos pelos seres humanos há muito tempo tendem a ser minimamente processados. Eles podem até serem processados de algum forma - a farinha é processada, o leite é pasteurizado - mas eles não são "ultra-processados", como algumas pessoas diriam. Ou seja, eles ainda são ou ingredientes ou alimentos integrais, mas não são refeições ou lanches prontos para comer. Portanto, tente esta regra: "Não coma nada sua bisavó não reconheceria como comida".
"Coma alimentos preparados por seres humanos" - que é uma outra maneira de pensar sobre isso. 

Mesmo se tiver feito o seu próprio Twinkie [N. T.: um tipo de bolinho "Ana Maria"] em casa, seria mais real do que o Hostess Twinkie. Você não precisaria de todos aqueles produtos químicos para dar-lhe uma vida de prateleira de seis meses. Você teria que fazer isso com farinha, açúcar, algum tipo de gordura, e dispensar a maior parte dos 37 ou mais ingredientes de um Twinkie, a maioria dos quais nenhum ser humano tem em sua despensa.





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