Como o excesso de medicamentos pode matar






Por Dr. Aseem Malhotra

Durante uma recente consulta clínica, vi Mary, com seus 60 anos recém completados, com diabetes tipo 2. Ela estava preocupada com as dores musculares em suas pernas, que podem ter sido resultado da droga estatina, que toma para baixar o colesterol. "Mas eu tenho medo de parar". Ela explicou como uma enfermeira especialista havia dito a ela que um coágulo poderia romper a sua aorta, ser deslocado para o cérebro e causar um acidente vascular cerebral enorme.

Assegurei-lhe que, mesmo naqueles com doença cardíaca estabelecida, que aparentemente se beneficiam tomando o medicamento, o risco de morte por interrupção da medicação por duas semanas para ver se haveriam efeitos colaterais, estava perto de 1 em 10.000.

Infelizmente, tal desinformação e o medo instigado são comuns. Uma das causas é, sem dúvida, impulsionada pelos interesses comerciais da indústria farmacêutica.

Cardiologista, o Dr. Peter Wilmshurst em uma palestra que deu no Centro de Medicina Baseada em Evidências no ano passado, apontou que a indústria da droga e de dispositivos médicos tem uma responsabilidade ética e legal para produzir lucro para seus acionistas, mas não para vender aos pacientes e aos médicos o melhor tratamento. Mas o verdadeiro escândalo, diz ele, é a falha dos reguladores e da conivência entre médicos, instituições e revistas médicas.

De acordo com Peter Gotzsche, professor de projeto de pesquisa e análise da Universidade de Copenhagen, medicamentos prescritos são a terceira causa mais comum de morte, depois das doenças cardíacas e câncer. Em uma análise publicada no BMJ, ele estimou que a cada ano as drogas psiquiátricas, incluindo antidepressivos e medicamentos para demência, são responsáveis por meio milhão de mortes em pessoas com idade acima de 65 anos.

Entre 2007 e 2012, a maioria das 10 maiores empresas farmacêuticas pagaram multas consideráveis por vários delitos que incluíam comercialização de medicamentos para usos off-label (não aprovados), deturpação dos resultados de pesquisas e omissão de dados sobre os efeitos nocivos. Mas enquanto estes atos criminosos gerarem lucro, eles continuarão inabaláveis.

Revistas médicas e os meios de comunicação também podem ter ser manipulados para servir não apenas como veículos de marketing para a indústria, mas também sendo cúmplices, silenciando aqueles que exigem maior controle independente dos dados científicos.

No início deste ano, o editor da Lancet, Richard Horton, escreveu que possivelmente metade da literatura médica publicada pode ser simplesmente falsa e que a ciência tinha "tomado um caminho para a escuridão".

Há, portanto, uma boa notícia, que há várias semanas, a médica chefe oficial da Grã-Bretanha, Dame Sally Davies, pediu um inquérito sobre a segurança dos medicamentos para restaurar a confiança do público. Mas o que é decepcionante é que ela pediu à Academia de Ciências Médicas para realizar a avaliação. Como um acadêmico sênior respeitado, que não quis ser identificado, me disse que era "quase independente" e era o mesmo que “pedir às raposas para protegerem o galinheiro". E é interessante notar que a academia não se inscreveu para a campanha AllTrials iniciada pelo Ben Goldacre, que solicita que todos os resultados de todos os ensaios clínicos sejam disponibilizados para médicos, pesquisadores e pacientes.

Mas uma verdadeira vontade política para abordar estas questões também tem faltado. Em vez de perseguir sua obsessão atual com novos contratos, o secretário de saúde, Jeremy Hunt, estaria fazendo um favor muito maior aos médicos e ao público britânico, decidindo atacar as manipulações e excessos de interesses escusos, que contribuem para um serviço de saúde ineficiente.

Em julho, Sir Bruce Keogh, o ex-cirurgião cardíaco e diretor médico do NHS na Inglaterra (National Health Service), disse que, cerca de 10 a 15% dos tratamentos médicos e cirúrgicos no NHS, não deveriam ter sido realizados nos pacientes.

Isto acontece apenas um mês depois que a Academy of Medical Royal Colleges, a organização independente que representa cerca de 220.000 médicos do Reino Unido, lançou uma campanha para reduzir os danos do excesso de medicamentos, afirmando que os conflitos de interesses comerciais, medicina defensiva e reportagens tendenciosas em revistas médicas, são as raízes do problema.

Uma das recomendações da academia pede que os comissários considerem diferentes incentivos de remuneração para os médicos que se comprometem na prestação de um atendimento de qualidade, por terem conversas sensatas com os pacientes sobre o valor de um tratamento. Melhor isso do que um incentivo pelo volume de prescrições de medicamentos ou pelo número de operações realizadas.

Professor Chris Ham, executivo-chefe do centro de estudos da saúde Fundo do Rei (King’s Fund), disse: "Muitos médicos aspiram a excelência no diagnóstico da doença; muito menos infelizmente aspiram aos mesmos padrões de excelência no diagnóstico que os pacientes desejam”. E ele está absolutamente certo.

Três meses depois, Mary se sente como uma "nova mulher", depois que suas dores musculares desapareceram dentro de uma semana após parar de tomar as estatinas, e sua qualidade de vida agora é muito melhor, tolerando uma dose mais baixa da droga. Ela também começou a seguir uma dieta mediterrânea rica em gordura com baixo teor de açúcar e outros carboidratos refinados, depois que eu disse a ela que isto seria muito mais eficaz em reduzir o risco de ataque cardíaco ou derrame, do que qualquer pílula que poderia recomendar a ela. Ela já perdeu peso e até mesmo sua diabetes tipo 2 está melhor controlada.

 A ganância corporativa e o fracasso político sistemático deixaram a saúde de joelhos. Há muitos médicos mal informados e pacientes mal informados. É tempo de uma maior transparência e uma maior prestação de contas, de modo que médicos e enfermeiros possam prestar o melhor atendimento de qualidade para a pessoa mais importante na sala de consulta - o paciente. Como John Adams, o segundo presidente dos Estados Unidos, disse: "A preservação dos meios de conhecimento entre os níveis mais baixos é mais importante para o público do que todas as posses de todos os homens ricos do país." É hora de conter os danos do excesso de medicamentos.
Aseem Malhotra é um cardiologista com sede em Londres


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 As informações contidas neste blog são relatos pessoais, ou artigos traduzidos com as devidas referências, não se destinam a diagnosticar, tratar, curar ou prevenir qualquer condição médica e não devem ser usadas como um substituto para o cuidado e orientação de um médico / nutricionista.