A Sensibilidade ao Glúten é subjetiva?

Foto: LISA SHIN 
Nos últimos 40 anos, o consumo médio per capita de trigo no Brasil mais que dobrou, conforme projeções do IBGE. Atualmente, cada pessoa consome 60 kg de trigo em um ano, média considerada ideal pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Porém este aumento de consumo do trigo, corresponde  à um decréscimo no consumo de alimentos saudáveis como frutas, verduras e legumes. Esse desequilíbrio no comportamento alimentar está aumentando os casos de doenças crônicas não transmissíveis, ente elas a intolerância ao glúten, além de sintomas físicos, mentais e emocionais.
Coincidentemente ou não, o peso das pessoas também está aumentando e a diabetes tornou-se uma epidemia.

Muitas pessoas já perceberam que os grãos, principalmente o trigo, são estimulantes potentes do apetite e que fazem engordar, tanto que no meio fitness, o trigo é considerado um dos grandes inimigos da boa forma. Para a maioria dos nutricionistas, ao tirarem o trigo dos seus hábitos alimentares, as pessoas estão cometendo um erro. "Isto não passa de uma modinha midiática”, como dizem. Marcelo Vosnik, presidente da Abitrigo (Assoc. Bras. da Industria do Trigo), concorda e diz não acreditar que as pessoas estejam embarcando nessa, "glúten só faz mal para celíacos". 5

Leia: O trigo e a FOME   


 A DOENÇA CELÍACA

Dr William Davis, cardiologista e autor do best seller "Barriga de Trigo", considera que o aumento aparente na incidência da doença celíaca (ou pelo menos nos marcadores imunológicos para a sensibilidade ao glúten) não se deve apenas ao avanço tecnológico dos exames. A frequência da doença em si, quadruplicou ao longo dos últimos cinquenta anos, tendo dobrado nos últimos vinte anos. 

Para piorar a situação, o aumento na incidência da doença celíaca apresenta um paralelo com o aumento de casos de diabetes do tipo 1, de doenças autoimunes, como a esclerose múltipla, a doença de Crohn e de alergias. 

Dados recentes sugerem que a maior reação ao glúten que ocorre atualmente, é devida ao trigo moderno, que pode, pelo menos em parte, constituir a explicação para o aumento na incidência da doença celíaca. Um estudo proveniente da Holanda comparou 36 linhagens de trigo com 50 linhagens representantes do trigo cultivado até um século atrás. Ao procurar as proteínas do glúten que provocam a doença celíaca, pesquisadores descobriram que proteínas com essa característica estavam expressas em níveis mais altos no trigo moderno, enquanto que as proteínas não acionadoras da doença celíaca, estavam menos presentes.

Em suma, embora a doença celíaca seja comumente diagnosticada em pessoas com queixas de perda de peso, diarreia e dor abdominal, no século XXI você pode ser gordo e ter prisão de ventre, ou mesmo se for magro e tiver sua função intestinal regularizada, ainda assim, pode ter a doença. E você tem maior probabilidade de ter a doença do que seus antepassados.
Os CARBOIDRATOS e as PROTEÍNAS do TRIGO

Os amidos do trigo são os carboidratos complexos. “Complexos” neste caso, significa que os carboidratos do trigo são polímeros (cadeias repetitivas) de um açúcar simples, a glicose, ao contrário dos carboidratos simples como a sacarose, que são estruturas formadas por um ou duas unidades de açúcar (glicose).

Dos carboidratos complexos encontrados no trigo, 75% corresponde a AMILOPECTINA, carboidrato de cadeia ramificada e 25% corresponde a AMILOSE, carboidrato de cadeia linear. No trato gastrointestinal humano, tanto a amilopectina quanto a amilose, são digeridas pela amilase, uma enzima que está presente na saliva e no intestino delgado. Ao contrário da amilose, a amilopectina é digerida de modo eficiente pela amilase em glicose, que é absorvida pela corrente sanguínea, que causa um aumento do nível de glicose no sangue e a consequente elevação da insulina. O açúcar elevado no sangue e a alta da insulina são seguidos por uma queda do açúcar no sangue, acompanhada de um"nevoeiro" mental, fadiga, ansiedade e um sentimento desesperado de fome que ocorrem em ciclos de 90-120 minutos.

 Embora o trigo seja composto principalmente de carboidratos e contenha apenas de 10 a 15% de proteínas, 80% dessas proteínas correspondem ao glúten.

O Glúten é uma proteína presente no trigo, centeio, cevada, espelta, triticale, os trigos bulgur e kamut ou outras fontes menos comuns de glúten. O consumo de trigo supera o de outros grãos que contêm glúten numa proporção de mais de cem para um.

O glúten é composto por dois tipos de proteínas: as gliadinas e as gluteninas. Os peptídeos derivados da digestão da gliadina, bloqueiam a leptina - o hormônio da saciedade, que dá a informação ao cérebro que você já comeu o suficiente, e também podem aumentar o apetite em algumas pessoas.
As gliadinas determinam uma resposta imunológica mais intensa no organismo nos casos de doença celíaca, pois os sistemas imunológicos dos celíacos são geneticamente predispostos a vê-las como organismos invasores.

E isto tem vários efeitos colaterais: uma redução das vilosidades intestinais, as inúmeras dobras que revestem o intestino delgado e são responsáveis pela absorção dos nutrientes para a corrente sanguínea. À medida que as vilosidades vão sendo destruídas, a superfície de absorção diminui a pessoa tem sérias consequências com a desnutrição.

A ZONULINA é um tipo de proteína (a haptoglobina) que foi descoberta em 2000 por uma equipe de pesquisadores da Maryland School of Medicine, nos EUA. A proteína é encontrada nas células intestinais e é a única proteína humana até agora descoberta, que regula a permeabilidade do intestino. A zonulina foi chamada de "regulador da força de adesão”, uma vez que controla o tamanho dos espaços entre as células intestinais e controla a passagem de nutrientes, água e células para dentro e para fora do intestino.

Os cientistas descobriram que a zonulina é produzida e liberada por gatilhos incluindo infecções intestinais bacterianas e o glúten, e uma associação entre a zonulina e doença celíaca já foi estabelecida. Na presença de zonulina, as junções normalmente apertadas entre as células intestinais permanecem abertas, aumentando a permeabilidade do intestino ("leakiness"), e isto inicia uma cascata inflamatória que eventualmente danifica a parede intestinal.


"O aumento da permeabilidade intestinal tem sido apontada numa variedade de condições auto-imunes, incluindo a doença celíaca, diabetes tipo 1, artrite reumatoide e esclerose múltipla," explica o Prof. Barbara. "Como a zonulina é um regulador chave da permeabilidade intestinal, é possível que esta proteína seja um elo comum entre todas estas condições". 9



SINAIS DA INTOLERÂNCIA AO GLÚTEN


Há mais de 55 doenças que têm sido associadas ao glúten, que é encontrado no trigo, centeio e cevada. Estima-se que 99% das pessoas que têm intolerância ao glúten ou doença celíaca, não são diagnosticadas. Estima-se também que 15% da população dos EUA seja intolerante ao glúten.

A diferença entre uma intolerância e a doença celíaca: na doença celíaca, os danos do glúten se manifestam no intestino com total lesão da mucosa intestinal, impossibilitando a absorção de nutrientes vitais. Já a intolerância se manifesta em qualquer lugar do corpo, incluindo o intestino.


Se você tiver qualquer um dos seguintes sintomas, pode ser um sinal de que você tem intolerância ao glúten:



- Problemas digestivos, como gases, flatulência, distensão abdominal (foto), diarreia e até mesmo prisão de ventre. Constipação particularmente em crianças, após a ingestão de glúten.





- Queratose pilar
Também conhecida como "pele de galinha" na parte traseira de seus braços. Isto tende ser resultado de uma deficiência de ácidos graxos e deficiência de vitamina A secundária à má absorção de gordura, causada pelo glúten danificando o intestino. 





- Fadiga, confusão mental ou cansaço depois de comer uma refeição que contenha glúten.
Cérebro em nevoeiro - o glúten contém gluteomorfinas que podem atuar como a morfina em algumas pessoas, causando confusão mental. O glúten pode também atacar o cérebro, causando inflamação, levando a confusão mental.


- Doenças auto-imune, tais como tiroidite de Hashimoto, a artrite reumatóide, colite ulcerativa, lúpus, psoríase, esclerodermia ou esclerose múltipla.
Portadores de artrite reumatoide, uma artrite dolorosa e incapacitante que pode deformar as articulações das mãos e dos joelhos, quadris, cotovelos e ombros, podem apresentar sensibilidade ao trigo associada a essa condição. Em um estudo em que pacientes que sofriam de artrite reumatoide, nenhum deles celíaco, submeteram-se a uma dieta vegetariana, sem glúten, foram observados sinais de melhora da artrite em 40% deles, bem como níveis reduzidos de anticorpos antigliadina. Talvez seja exagero sugerir que o glúten do trigo foi a causa inicial, o estimulador da artrite, mas ele pode, sim, exercer efeitos inflamatórios exacerbados nas articulações tornadas suscetíveis por outras doenças, como a artrite reumatoide. 


- Sintomas neurológicos como tonturas ou sensação de estar fora de equilíbrio.

-Desequilíbrios hormonais, tais como a TPM, SOP ou infertilidade inexplicada.

- Dores de cabeça da enxaqueca.
Sensibilidades alimentares são conhecidas por causar dores de cabeça e enxaquecas, e com o glúten não é diferente. Um estudo recente mostrou que 56% das pessoas que tinham sido diagnosticadas com enxaqueca, tinham uma sensibilidade ao glúten subjacente. Depois de retirar o glúten da dieta, as crises de enxaquecas foram resolvidas.


- Fadiga crônica ou fibromialgia.
Diagnósticos inconclusivos que não conseguem indicar o ponto ou a causa do cansaço ou dores do paciente.


-Inflamação, inchaço ou dor nas articulações, como dedos, joelhos ou quadris.
O corpo atacado pelo o glúten forma complexos imunes que podem se instalar nas juntas causando inchaço, dor e inflamação.



-Problemas disposição tais como ansiedade, depressão, alterações de humor e TDA/H (Transtorno do Déficit de Atenção).  
O glúten pode causar uma permeabilidade no  intestino e perturbar a sua capacidade de absorver certos nutrientes vitais como vitaminas do complexo B, ferro, vitamina D, ácidos graxos ômega 3 e zinco. Estes nutrientes são essenciais para o humor e a saúde do cérebro.



Como testar a sensibilidade ao glúten

1. Os exames de sangue

Existem vários testes sanguíneos disponíveis para testar a sensibilidade ao glúten; no entanto a maioria dos médicos convencionais ainda testam apenas a doença celíaca, por isso é bom encontrar um médico de medicina funcional, a fim de ser testado para sensibilidade ao glúten.


2. Faça o desafio da eliminação do glúten

Você pode experimentar eliminar 100% do glúten da sua alimentação por pelo menos duas semanas e verificar se você se sente melhor sem o glúten, ou pior quando voltar a comer. Quanto mais tempo conseguir ficar sem ingerir glúten, melhor para conseguir identificar os sinais do seu corpo. Se você se sentir melhor sem, ou pior quando voltar a ingerir glúten, há grandes chances que você tenha uma sensibilidade ao glúten.

Mesmo que a manifestação externa por comer glúten possa parecer leve, o seu sistema imunológico está sendo estimulado, e os efeitos podem durar de três a seis meses.

Para as pessoas que não podem tolerar o glúten, não importa se é uma moda passageira, ou se "intolerância ao glúten" não o um termo científico adequado, ou ainda se a recusa de um pão atormenta alguém na mesa. O que importa, fundamentalmente, é:

Se sente-se melhor quando não come glúten, então não coma glúten! 

Uma informação bem pouco divulgada é que para fabricar a farinha de trigo, são removidos o farelo das sementes de trigo (seis camadas externas) e o germe do trigo, que contém metade dos ácidos graxos insaturados benéficos, praticamente toda a vitamina E, 50% do cálcio, 70% do fósforo, 80% do ferro, 98% do magnésio, 50 a 80 % das vitaminas B além de outros nutrientes do grão que são destruídos.

Então, qual o problema em deixar de comer um alimento com tão pouco valor nutricional???

Como tratar a intolerância ao glúten? 


Eliminar o glúten 100% de sua dieta significa 100%. Mesmo pequenas quantidades de glúten por contaminação cruzada pode ser suficiente para causar uma reação imunológica no seu corpo.

A regra 80/20 ou o famoso "não como quando estou em casa, só quando como fora", é um grande erro. Um artigo publicado em 2001, afirma que aqueles com doença celíaca ou sensibilidade ao glúten que comerem glúten apenas uma vez por mês, o risco relativo de morte aumentou em 600%. Ao longo dos anos, a ingestão de trigo e glúten por pessoas sensíveis, eleva o risco de doenças graves, tais como esclerose múltipla, ataxia, diabetes, e ainda a esclerose amiotrófica lateral, também conhecida como "E.L.A." ou Doença de Lou Gehrig.

A simples eliminação de 100% de glúten da dieta pode não ser suficiente. Muitas pessoas ainda precisam reparar os danos que o glúten tem causado em seu intestino. Além disto, há possibilidade de haver outras infecções no intestino, tais como parasitas, candidíase e desequilíbrios bacterianos que precisam ser tratados. Para outros ainda pode haver a necessidade de seguir uma alimentação completamente livre de grãos, devido à reatividade cruzada com os grãos que não tem glúten.

Quando em dúvida, fique sem. Você não estará perdendo nenhum nutriente vital por não comer glúten. Na verdade, você pode estar salvando sua vida ou a vida de alguém que você ama.

O máximo que pode acontecer é que as pessoas em uma dieta livre de glúten, tendem a aumentar a sua ingestão de nutrientes essenciais, especialmente se elas substituírem pães e outros produtos feitos com farinha de trigo, por alimentos mais próximos ao seu estado natural  = comida de verdade, evitando os produtos processados.


Sugestão de leitura: 



Referências:
1 - Davis, William. Barriga de trigo [livro eletrônico] : livre-se do trigo, livre-se dos quilos a mais e descubra seu caminho de volta para a saúde / William Davis ; [tradução Waldéa Barcellos]. — 1. ed. — São Paulo : Editora WMF Martins Fontes, 2014. 
6 - http://www.infoescola.com/nutricao/gluten-2/

Sugestões de livros e programas sobre a Dieta Paleo - Low Carb? Veja aqui


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 As informações contidas neste blog são relatos pessoais, ou artigos traduzidos com as devidas referências, não se destinam a diagnosticar, tratar, curar ou prevenir qualquer condição médica e não devem ser usadas como um substituto para o cuidado e orientação de um médico / nutricionista.