Muito sal faz mal?


Muito sal faz mal, foi o que sempre ouvimos... 
Mas será que é muito sal ou pouco sal que faz mal?



Sal leva uma chacolhada Injusta, e a Saúde pública Sente a pitada


Artigo publicado em 13/10/2015 e traduzido por Regiany Floriano. O original está aqui.

Co-autoria de: James J. DiNicolantonio, PharmD
BREVE BIOGRAFIA: Dr. DiNicolantonio é uma investigadora no Instituto do Coração Mid America de São Lucas, em Kansas City, Missouri


A cidade de Nova York será a primeira cidade dos Estados Unidos a exigir que advertências sobre o teor de sódio sejam informadas nos cardápios. O Conselho de Saúde da cidade votou por unanimidade que as grandes cadeias de restaurantes, teatros e estádios devam inserir avisos (um símbolo de um saleiro num triângulo preto sinistro) em qualquer item que contenha mais de 2,300mg de sódio.
2.300 mg de sódio é o nível máximo de ingestão recomendado pelas Diretrizes Nutricionais Americanas existentes e pelo Comitê Consultivo de Diretrizes Dietéticas de 2015. Mas estas recomendações realmente se justificam? E rotular adequadamente irá chamar a atenção do consumidor e melhorar a saúde pública?


Orientações problemáticas sobre o teor de sódio na Dieta

Infelizmente, um crescente conjunto de evidências sugere que a orientação atual sobre sódio na dieta possa estar realmente mal direcionada. Além disso, o efeito da rotulagem de sódio poderia desviar a atenção de problemas nutricionais maiores e tornar os consumidores decididamente menos saudáveis.

Como pano de fundo, a justificativa para chamar toda a atenção para o sódio, se relaciona com a pressão arterial, o principal fator de risco para causa n.° 1 de morte nos EUA e NY (Nova York): a doença cardíaca. Mas a ligação entre o sódio e a pressão arterial é realmente mais inconsistente, menos pronunciada, e mais sutil do que a maioria das pessoas tem ideia e a ligação entre o sódio e as doenças cardíacas representa um salto de lógica.

Na biologia, só porque A (sódio) leva a B (pressão arterial) e B (pressão arterial) leva a C (doença cardíaca) não significa A (sódio) necessariamente leva a C (doença cardíaca). Em outras palavras, apesar de que a maior a ingestão de sódio força, em alguns casos, o aumento da pressão arterial, pode não levar a problemas cardíacos e a menor ingestão de sódio pode não proteger o coração ou a saúde.


A importância de sódio na dieta


Vale a pena notar que o sódio é um nutriente essencial. Embora a maioria das pessoas tenha sido condicionada a acreditar que quanto menos sódio se consome melhor, a evidência sugere que em algum lugar entre 3 a 6 gramas de sódio por dia na dieta não só pode ser seguro, mas ótimo para o coração e a saúde.

Em diversas populações, hábitos alimentares e tempo, a ingestão de sódio é notavelmente estável. A ingestão média nas populações ocidentais diminuiu consistentemente entre cerca de 3 a 5 gramas por dia, independentemente das ofertas de alimentos específicos ou das intervenções de saúde pública. Nossos corpos reconhecem a necessidade de manter níveis suficientes de sódio e a ingestão de sódio é em grande parte regulada por meio de controles internos inconscientes.


O problema da baixa ingestão de sódio

Quando as pessoas consomem quantidades relativamente baixas de sódio, a pressão sanguínea pode diminuir um pouco, embora em algumas pessoas a redução da ingestão de sódio pode realmente aumentar a pressão sanguínea. Naqueles que têm sua pressão arterial reduzida com o consumo de sódio reduzido, a redução poderia ser algo em torne de 1 a 4 mmHg em média (numa escala onde até 120 mmHg é considerada normal).

Independentemente dos possíveis efeitos sobre a pressão arterial porém, indivíduos que consomem menos do que uns 3 gramas por dia de sódio, realmente estarão correndo um risco maior de ataques cardíacos, acidente vascular cerebral e morte precoce. Por outro lado, o indivíduo que consumir mais do que cerca de 5 gramas de sódio por dia não parece ter risco maior de ataques cardíacos, acidente vascular cerebral ou morte precoce (especificamente em amostras populacionais representativas ajustadas para fatores apropriados).

O lado negativo do efeito, por vezes mortal, da baixa ingestão de sódio, pode ser visto em outros efeitos decorrentes do sódio sobre o coração e os vasos sanguíneos. Por exemplo, a redução da ingestão de sódio pode estimular os hormônios a aumentarem a frequência cardíaca, a carga de trabalho cardíaco e o estresse cardíaco, e levar a níveis insalubres de colesterol no sangue. Pessoas com níveis ainda mais baixos do que o normal de sódio no sangue, estão em maior risco de morte por ataques cardíacos e derrames.


Consequências na saúde de grupos vulneráveis

As iniciativas que visam diminuir o consumo de sódio podem ser decididamente, uma coisa ruim para a saúde pública. Os efeitos prejudiciais poderão ser um problema, em particular para os grupos vulneráveis da sociedade.

A Comissária de Saúde de NY, Dra Mary Basset, preocupa-se com razão sobre as taxas de mortalidade prematura entre negros e latinos nova-iorquinos. Mas justamente estes nova-iorquinos são os que poderão ser mais prejudicados por iniciativas destinadas à restrição de sódio na dieta. 

Diabetes, doenças renais e doenças do coração são todos mais prevalentes entre os grupos minoritários, e o respeitado Instituto de Medicina (agora a Academia Nacional de Medicina) concluiu que a ingestão de sódio tão baixa como a recomendada para as pessoas nessas condições médicas, pode causar danos.


Considerações alimentares mais abrangentes

É importante ressaltar que os efeitos líquidos sobre a saúde da ingestão alimentar não se relacionam apenas com a quantidade de sódio em qualquer item do cardápio, mas a todos os outros componentes deste item e a todos os outros alimentos na dieta. Afinal, as pessoas comem alimentos, não componentes alimentares isolados, como o sódio.

Outros componentes dos alimentos podem atenuar os efeitos insalubres de um alto consumo anormal de sódio. O Potássio, por exemplo, está associado a um menor risco de ataque cardíaco, acidente vascular cerebral e morte precoce.  A ingestão de vegetais (boas fontes de potássio entre outros componentes saudáveis), que são generosamente temperados com um saleiro, provavelmente não anularia os benefícios que esses vegetais fornecem.

No entanto, a principal fonte de sódio na dieta não é o sal adicionado aos alimentos integrais através do saleiro. É o sal incorporado nos itens processados nas indústrias e nas cozinhas.

É certo que há muitos itens nos cardápios de NY contendo quantidades incríveis de sódio. Mas não é o sódio nesses itens que é o problema, per se. O problema são os próprios itens.

Os itens que a nova iniciativa de sódio de NY irão destacar, serão geralmente os ingredientes das formulações industriais dos ultra-processados. Em particular, os itens repletos de amidos refinados e açúcares adicionados, os quais por si só, já constituem um risco maior de hipertensão e doenças cardíacas do que de sódio.


Efeitos involuntários nos alimentos e nas dietas

Quando a rotulagem dos saleiros de NY entrar em vigor, as empresas de alimentos terão que reduzir o sódio em seus itens com alto teor de sódio. As empresas terão que, inevitavelmente, substituir o sal por outra coisa para conseguir que seus produtos sejam palatáveis. Muitas vezes, o que vai substituir o sal, será o açúcar.

O açúcar pode aumentar a pressão arterial por meio de uma variedade de mecanismos. 
Uma dieta rica em açúcares adicionados foi associada com o aumento da pressão arterial e pode aumentar em 3 vezes o risco de morte por doença cardiovascular. 

Será que incentivar a indústria a produzir, e os clientes a consumirem produtos com maior teor de açúcar será bom para a saúde pública?

Mesmo que as empresas de alimentos não modifiquem seus produtos com alta quantidade de sódio, exceto subtrair o sódio (um feito que seria impossível na realidade, devido às restrições de palatabilidade), os consumidores ainda terminariam por levar mais açúcar (bem como mais gorduras pouco saudáveis e outros ingredientes artificiais dos ultra processados, como por exemplo: corantes, sabores, enchimentos, estabilizantes, emulsificantes, etc.). 

Lembre-se que a ingestão de sódio é altamente estável entre as populações e involuntariamente regulada. Se diminuir o teor de sódio dos alimentos, os consumidores terão de consumir uma maior quantidade do item ou um número maior de itens para suprir o sódio que seus corpos exigem (e consequentemente, irão receber doses maiores de todos os outros componentes pouco saudáveis nesses itens).

Será que as pessoas se sentiriam atraídas e comeriam mais os produtos com o apelo: "agora com menos sódio"? Nachos, carnes processadas, noodles e arroz picantes ficariam bons? Economicamente, para algumas empresas seria uma vantagem, razão pela qual, algumas podem adotar a iniciativa de rotulagem de sódio de NY ou simplesmente fazer de forma pouco convincente. Mas para os consumidores, isso pode significar comer mais coisas em geral e, especificamente, comer mais coisas não saudáveis.


O Caminho Adiante para a Saúde Pública

A rotulagem de sódio é o emblema de outras iniciativas mal direcionadas de saúde pública voltadas para componentes alimentares individuais. 

Anos atrás, quando as campanhas focaram na gordura dietética, a indústria de alimentos a substituiu por amidos e açúcares e o resultado foi o aumento das taxas de obesidade e de doenças crônicas. Hoje, iniciativas como estas voltadas ao sódio, provavelmente o resultado será o mesmo: as empresas de alimentos farão substituições tornando os produtos não saudáveis em talvez não tão saudáveis, ou até menos saudáveis.

Chegou a hora de parar de se concentrar nos componentes alimentares e começar a se concentrar sobre os alimentos e nas dietas como um todo. Se o departamento de saúde de  NY quer um símbolo para acompanhar os itens do cardápio em vários restaurantes da cidade, então um indicador de qualidade nutricional global seria muito melhor. Já existem sistemas de pontuação que poderiam ser aplicados. Entretanto, o foco continuo sobre os constituintes isolados do cardápio, particularmente no sódio, provavelmente produzirá efeitos exatamente opostos daqueles aos quais se destina. O que precisamos é de iniciativas que valham o seu sal.


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