Os Americanos finalmente estão comendo menos



Após subir ao longo de décadas, o consumo de calorias tem diminuído nos últimos anos, com as mudanças das atitudes das pessoas.

Artigo do New York Times de 24 de julho de 2015, traduzido por Regiany Floriano. O original está aqui.

Por Margot Sanger-Katz

Depois de décadas de dietas cada vez piores e aumentos acentuados na obesidade, os hábitos alimentares dos americanos começaram a mudar para melhor.

Calorias consumidas diariamente por um adulto típico americano, que atingiram o pico por volta de 2003, estão no meio de seu primeiro declínio desde que as estatísticas federais começaram a acompanhar o assunto, há mais de 40 anos atrás. O número de calorias que uma criança média americana consome no dia a dia caiu ainda mais - em pelo menos 9 por cento.

Os decréscimos atravessam a maioria dos principais grupos demográficos - incluindo famílias de alta e baixa renda, e brancos e negros - embora variem um pouco por grupo.

A mudança mais marcante: a quantidade de refrigerante (normal, não light) bebido por um americano que caiu 25 por cento desde o final da década de 1990.

Como o consumo de calorias diminuiu, as taxas de obesidade parecem ter parado de subir tanto em adultos quanto em crianças em idade escolar e caíram entre os mais jovens, o que sugere que a redução de calorias está fazendo a diferença.

A reversão parece resultar da crescente percepção de como as pessoas estavam prejudicando sua saúde por comer e beber muito. Esta conscientização começou no final de 1990, graças a uma explosão de investigações científicas sobre os custos da obesidade, e pelas campanhas de saúde pública nos últimos anos.

Os dados encorajadores não significam o fim da epidemia de obesidade: Mais de um terço dos adultos americanos ainda são considerados obesos, o que os coloca em risco aumentado de diabetes, doenças cardíacas e câncer. Os americanos ainda estão comendo muito poucas frutas e vegetais e muito, muito junk food, mesmo que eles estejam comendo um pouco menos, dizem os especialistas.

Mas as mudanças nos hábitos alimentares sugerem que o que antes parecia um inexorável declínio da saúde pode finalmente estar mudando de rumo. Desde meados dos anos 70, quando os hábitos alimentares americanos começaram a mudar rapidamente, o consumo de calorias estava numa elevação quase constante.

"Eu acho que as pessoas estão ouvindo a mensagem e a alimentação está melhorando lentamente", disse Dr. Dariush Mozaffarian, reitor da Escola Friedman de Nutrição e Ciências Políticas na Universidade Tufts.

Barry Popkin, professor da Universidade da Carolina do Norte que tem estudado extensivamente dados relativos à alimentação, e descreveu o desenvolvimento como um "ponto de mudança".

Não há nenhuma maneira perfeita para medir o consumo americano de calorias. Mas três grandes fontes de dados alimentares apontam na mesma direção. Diários alimentares detalhados monitorados por pesquisadores do governo, os dados dos códigos de barras dos alimentos e as estimativas de produção de alimentos, todos mostram reduções das calorias consumidas pela média americana, desde o início dos anos 2000. Esses sinais, junto com o achatamento da taxa de obesidade nacional, convenceram muitos pesquisadores de saúde pública que as mudanças são significativas.

As mudanças alimentares têm sido mais substanciais em domicílios com crianças. Sebastian, o filho de 4 anos de idade de Becky Lopes Filho, sempre esteve no topo do gráfico de crescimento quanto ao peso. Becky, de 35 anos, é a gerente de operações de uma pizzaria em Cambridge, Mass., e seu filho, como ela, adora comida. À medida que ele foi crescendo, ela ficou mais preocupada com seus desejos por doces. Em vez de um cookie todos os dias, ela disse que  agora vem tentando limitá-lo a um por semana. "Se ele tivesse livre acesso, ele perderia o controle", disse ela. "Eu acho, que ele tenderia a ser um garoto super-obeso."

Não existe um momento único de quando as atitudes americanas em relação à comida mudaram, mas os pesquisadores apontam um estudo de 1999 como um marco. Naquele ano, os pesquisadores dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças publicaram um artigo no The Journal of American Medical Association que se transformou num grande sucesso.

O documento incluído brilhantes mapas azuis ilustrando o agravamento das taxas de obesidade na década de 1980 e 1990 em todos os 50 estados. Os pesquisadores sabiam que a taxa de obesidade estava aumentando, mas o Dr. Ali Mokdad, o principal autor do estudo, disse que, quando ele apresentou os mapas em conferências, até mesmo os peritos ficaram ofegantes. Um ano depois, ele publicou outro trabalho, com um conjunto semelhante de mapas, mostrando uma explosão relacionada com diagnósticos de diabetes. "As pessoas se tornaram mais conscientes disto de uma forma muito perceptível e impactante", disse Hank Cardello, um antigo executivo da indústria de alimentos que agora é um membro sênior do Instituto Hudson, um centro de política conservadora. "Isso chamou muita atenção e gerou preocupação."

Pouco depois, Dr. David Satcher, Ministro da Saúde, divulgou um relatório - "Chamada para Ação para Prevenir e diminuir o sobrepeso e obesidade" - inspirado no famoso relatório de 1964 do Ministério da Saúde sobre o tabaco. O relatório de 2001 resumiu a crescente evidência de que a obesidade era um fator de risco para várias doenças crônicas, e disse que controlar o peso das crianças deveria ser uma prioridade, para prevenir o aparecimento de doenças relacionadas com a obesidade.

Calorias caíram
Os diários alimentares, registros de compras e medidas do abastecimento alimentar de alimentos todos mostram que calorias diárias caíram ao longo da última década.

Variação percentual de calorias diárias, desde 2004


Lentamente, as mensagens parecem que foram absorvidas pelo público. Em 2003, 60 por cento dos americanos disseram que queriam perder peso, de acordo com a Gallup, acima dos 52 por cento em 1990 e 35 por cento na década de 1950.

O governo Obama aumentou a pressão. O AffordableCare Act, aprovado em 2010, exigiu das redes de restaurantes que publicassem o conteúdo calórico de suas refeições. O governo federal também mudou suas exigências, tornando a merenda escolar saudável, embora o esforço tenha gerado alguma reação.

Várias cidades foram mais longe. Philadelphia subsidia compras de produtos para os pobres. New York limita o tipo de comida disponível em creches. Berkeley, Calif., no ano passado se tornou a primeira cidade dos Estados Unidos a cobrar impostos de bebidas adoçadas com açúcar. A evidência da eficácia dessas intervenções não é clara, mas sua popularidade reflete a importância que os funcionários de saúde pública dão para a alimentação e obesidade.

Ainda assim, a cronologia da diminuição das calorias sugere que as pessoas começaram a comer um pouco menos, antes dos responsáveis políticos se envolveram. Isso segue uma via semelhante ao consumo do tabaco, que chegou bem na época do relatório de 1964 do Ministério da Saúde. As alterações políticas do país, que muitos atribuem às nítidas reduções do fumo - a proibição da publicidade, etiquetas de advertência, os impostos e as restrições de fumar em público - vieram mais tarde, acelerando a mudança depois que as atitudes já tinham começado a mudar.

As campanhas de saúde pública anti obesidade têm focado num assunto muito mais do que qualquer outro: as bebidas.

Mensagens contra os refrigerantes acertaram o alvo. Os americanos, em média, compravam cerca de 40 litros de refrigerante (normal, não light) por ano em 1998, de acordo com dados das vendas publicados pela indústria Beverage Digest analisados pelo Centro de Ciências de Interesse Público. Isso caiu para 30 litros, em 2014, comparando com o que os americanos compraram em 1980, antes de as taxas de obesidade decolarem.

"Acho que cada vez mais neste país, não se considera uma boa ideia consumir uma grande quantidade de refrigerante", disse o Dr. Satcher, professor da Escola de Medicina Morehouse em Atlanta.

Empresas de bebidas têm reagido comercializando bebidas dietéticas e investindo fortemente em novos produtos, incluindo chás gelados e água aromatizada. "Muitas das mudanças que estamos vendo são dirigidas ao consumidor", disse John Sicher, editor da Beverage Digest.



Além das bebidas, existem algumas tendências claras. Especialistas que examinaram os dados dizem que as reduções não significam que os americanos estão fazendo filas nos mercados de hortifrúti e abandonando o fast food. O consumo de frutas e vegetais continua baixo; o consumo de sobremesas permanece alto. Em vez disso, as pessoas parecem estar comendo um pouco menos de tudo. Embora o consumo em quase todas as categorias foi "cortar um pouco", disse Popkin, "a comida, como parte da nossa dieta, é horrível e continua sendo horrível”.

As reduções de calorias são vistas em quase todos os grupos demográficos, mas não de forma igual. Famílias brancas têm reduzido o seu consumo de calorias mais do que famílias negras e hispânicas. De forma mais contundente, famílias com crianças reduziram mais do que adultos que vivem sozinhos, mais uma prova, dizem os especialistas, que a ênfase de saúde pública sobre a obesidade infantil está a conduzir as mudanças.

Becky disse que ela tem visto como a sua preocupação com a dieta de seu filho tem mudado sutilmente seus próprios hábitos alimentares. "Eu acho que ainda estou escondendo as coisas, mas eu tentei mudar", disse ela. "Eu não tenho bebido refrigerante ou preparado um monte de bebidas açucaradas no lugar, mas tudo por causa dele - porque eu sei que se tiver isso, ele vai querer isso. E não há realmente nenhuma maneira justa de dizer: 'Não, esta é bebida da mamãe'."

Talvez a maior ressalva para esta tendência é que ela não parece estender-se muito aos americanos mais pesados. Entre a maior parte das pessoas acima do peso (e da circunferência abdominal),todos continuaram a aumentar nos últimos anos.

As recentes reduções de calorias parecem ser uma boa notícia, mas, por si só, não são suficientes para reverter a epidemia de obesidade. Um estudo de Kevin Hall, pesquisador do Instituto Nacional de Saúde, estima que para os americanos retornarem aos pesos corporais de 1978 até 2020, um adulto médio seria necessário para reduzir o consumo de calorias em 220 calorias por dia. As reduções recentes representam apenas uma fração da mudança.

"Isso foi como um trem de carga indo ladeira abaixo sem freios", Kelly Brownell, reitor da Escola de Sanford de Políticas Públicas da Universidade Duke, disse. "Qualquer coisa que diminua velocidade será boa."

Mais informações sobre as fontes de dados que examinamos, e seus vários pontos fortes e fracos, pode ser encontrada aqui.




Curta MENOS RÓTULOS no Facebook