AÇÚCAR OSTENTAÇÃO



Como espécie, somos genética e fisiologicamente idênticos aos humanos que viveram antes do inicio da agricultura, no período Paleolítico. Não nos consideramos mais caçadores e coletores, mas nossos corpos, do ponto de vista biológico, com certeza, ainda se comportam como tal.

“Do ponto de vista evolutivo, nossos ancestrais só dispunham do açúcar que encontravam nas frutas, durante poucos meses do ano (na época da colheita), ou no mel, que era vigiado pelas abelhas. Mas, nos últimos anos, o açúcar foi adicionado a quase todos os alimentos processados, limitando as escolhas dos consumidores. A natureza fez do açúcar algo difícil de encontrar; o homem o tornou fácil.” (Dr. Robert Lustig et al.)

Se as "coisas doces" só estavam disponíveis em uma época do ano, isto quer dizer que: açúcares e amidos, conhecidos como CARBOIDRATOS, SÃO NUTRIENTES ABSOLUTAMENTE DESNECESSÁRIOS PARA O NOSSO CORPO. Durante quase toda a existência de nossa espécie, a principal fonte de energia para a maioria das células do nosso corpo, a GLICOSE foi uma substância escassa. Por isto o organismo humano tem maneiras de armazená-la e de transformar outras coisas em glicose.

Para transformar o combustível dos alimentos em energia para o uso de nossas células, o corpo fabrica glicose a partir da gordura ou das proteínas, sempre que necessário, por meio de um processo chamado “gluconeogênese”. Mas isso exige mais energia que a simples conversão de amido e açúcar em glicose.

A frutose, o açúcar natural das frutas, é o mais doce de todos os carboidratos que existem na natureza, por isto gostamos tanto dela. Mas não se preocupe, pois a quantidade de frutose na maior parte das frutas in natura é ínfima se comparada aos níveis de frutose adicionada artificialmente nos alimentos processados.

Daí o problema nos dias de hoje: a frutose não desencadeia a produção de insulina e leptina, dois hormônios-chave que controlam nosso metabolismo, e alimentar-se rotineiramente com grande quantidade produtos industrializados, leva à obesidade e a complicações metabólicas, como diabetes, por exemplo.


Dependência

Segundo Dr José Carlos Souto em seu blog: O problema não está exatamente nos carboidratos, mas na dependência que estabelecemos deles. Ao ativar áreas do cérebro ligadas ao prazer, eles derrubam nossas defesas contra a comilança desenfreada e nos deixam gordos e mal nutridos. Quanto mais comemos alimentos ricos em carboidratos, mais queremos comer – o processo é semelhante ao das drogas viciantes.

Em 2007, um experimento feito com ratos na Universidade de Bordeaux, na França, mostrou que, quando os bichos podiam escolher entre cocaína intravenosa e um adoçante, 94% preferiram o substituto do açúcar. A conclusão foi a de que a doçura intensa funciona, para os receptores cerebrais, como um estímulo maior do que o da cocaína, de tal forma que, ao chegar ao centro de recompensa cerebral, suprime os mecanismos de autocontrole, levando à dependência.

Citando um trecho do livro "Pure, white and deadly" (puro, branco e mortal) de John Yudkin: "O ser humano tornou-se cada vez mais hábil em separar desejo e necessidade, a tal ponto que a satisfação desenfreada do desejo tornou-se desastrosa para o indivíduo e para a espécie. As pessoas sempre desejaram alimentos doces porque gostavam dos mesmos. E, enquanto os únicos alimentos doces a que tinham acesso eram frutas, ao satisfazer seu desejo pelo sabor doce, as pessoas automaticamente satisfaziam a sua necessidade de vitamina C e outros tantos nutrientes.

Porém, uma vez que o ser humano passou a fabricar a própria comida, especialmente após o desenvolvimento da tecnologia para o refino do açúcar e a manufatura dos alimentos, adquiriu a capacidade de separar a doçura e o conteúdo nutricional. O que as pessoas desejam desvinculou-se do que elas precisam." O autor segue seu argumento de que o forte desejo evolutivo pelo doce, a forma como a evolução nos compeliu no passado a consumir frutas, foi sequestrado pela industrialização dos alimentos.

Nunca comemos frutas por que eram saudáveis. Comíamos por que eram doces, temos desejo de comer doces, e os únicos alimentos doces existentes por 2 milhões de anos eram frutas. Subitamente, temos acesso ao açúcar refinado em quantidades ilimitadas, em "alimentos" sem nenhum valor nutricional. As pessoas então deixariam de comer porque faz mal? Claro que não, afinal, no caso das frutas, não comiam porque fazia bem, e sim porque era doce. A atração pelo doce é, como já dissemos, evolutiva. Uma característica intrinsecamente boa quando aplicada a comida de verdade, mas perniciosa quando aplicada ao mundo moderno.


Nos dias de hoje...

O potencial danoso do açúcar deve-se ao fato de que ele é um ingrediente recente na dieta humana. No mundo pré-moderno, a culinária utilizava o sabor adocicado do mel, de sorgo doce, de frutas etc. O açúcar foi uma revolução. Por ser fácil de armazenar e transportar, além de adoçar sem modificar muito o sabor da comida, tornou-se o adoçante quase hegemônico.

O açúcar extraído da cana já era produzido desde a Antiguidade por indianos e persas. Os árabes também aprenderam as técnicas de refino e dominaram sua exploração por muito tempo. Os europeus conheceram esta especiaria, exótica e caríssima por volta do século X. Poucos séculos depois, os eles já estavam fabricando açúcar na bacia do Mediterrâneo. Quando o Brasil foi descoberto, os portugueses já eram os principais produtores de açúcar na Ilha da Madeira. Com a entrada em cena do açúcar produzido, em larga escala, no Novo Mundo, especialmente no Brasil e nas Antilhas, teve início o processo de “açucaramento” da mesa do europeu.

No final do século XIX, cada pessoa consumia apenas dois quilos de açúcar,e o consumo foi aumentando a cada ano, só de 1984/85 a 2002/03, houve um acréscimo de 63%. Hoje chega a 37kg/pessoa.

A quantidade ideal de consumo do açúcar ainda é controversa. A Associação Americana do Coração indica o consumo de seis colheres de chá de açúcar por dia (30 gramas ou 100 calorias) a nove colheres de chá (45 gramas ou 150 calorias). Em 2009, quando esta recomendação foi publicada, o americano consumia em média 22 colheres de chá de açúcar todos os dias. O Brasil não tem estimativas seguras, mas de acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento, algo em torno de 30 colheres de chá, ou 150 gramas por dia. (fonte: VEJA).

As indústrias de alimentos estão profundamente envolvidas (ou pelo menos tem muita voz ativa) nas orientações sobre alimentação e nutrição nos EUA e fazem parte de lobby para manter seus produtos como “parte de uma dieta equilibrada".

Os fabricantes de refrigerante, de sobremesas, bolos, salgadinhos açucarados com o açúcar e o xarope de milho entre outras opções adoçantes, aproveitam o fator viciante do açúcar, adicionam quantidades exageradas aos produtos, focando diretamente numa propriedade do paladar humano, denominada HIPERPALATABILIDADE, fazendo um alimento apresentar uma intensidade de sabor muito maior do aquela presente na comida de verdade. O que nos faz comer mais e querer mais.

Assim, se nos acostumamos a consumir mais alimentos processados no nosso dia-a-dia, a comida de verdade começa a parecer sem gosto. Isto é muito perceptível nas crianças, que muitas vezes recusam os alimentos reais e só aceitam alimentos processados hiperpalatáveis como biscoitos recheados, salgadinhos, e guloseimas de todo o tipo. Mas o pior disso é que apesar de não parecer, alimentos altamente processados tem baixo valor nutricional...

Portanto há muitos motivos para retirarmos da nossa mesa muita coisa que parece saudável, mas não é. A experiência de sentir o real sabor doce de uma fruta é surpreendente, mas é preciso “resetar” a língua, voltando a comer sem adoçar nada além do seu sabor natural.

A boa notícia é que, após um período inicial de abstinência (como nas drogas), vamos redescobrindo o sabor da COMIDA DE VERDADE. O tempo de adaptação varia de pessoa pra pessoa, de semanas a meses, mas o fato é que, ao acostumar o nosso paladar com os alimentos com os quais evoluímos, seguir uma dieta saudável será um prazer, voltando a associar nossos desejos e nossas necessidades.



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